Entrevista com Cristiano Maciel sobre vida universitária e dicas para os ingressantes na área de computação

Tenho a honra de conversar com o professor Cristiano Maciel, da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso).
A entrevista foi feita via videoconferência, ele em Cuiabá (MT) e eu em Joinville (SC). Nesta entrevista preferimos apresentar no formato textual (transcrição da entrevista), mas pensamos em apresentar esta coluna de modo diversificado, variando o formato de entrevista para entrevista.

Hoje o nosso bate-papo visa apoiar o pessoal que está começando na área de computação, dando algumas direções e alguns entendimentos da área. Segue a nossa conversa!

Isa:
Gostaria de pedir primeiramente para você falar um pouquinho de você e da sua trajetória acadêmica.

Cris:
É muito difícil a gente falar da nossa trajetória, então eu gostaria de destacar o que acho bastante importante na minha formação.

Sou uma pessoa que gosta de fazer trabalhos escritos. Isso é uma coisa muito louca, geralmente, como professores, usamos a fala e escrevemos para colocar no papel nossos pensamentos. Já no ensino médio, eu gostava de escrever e de me envolver com os trabalhos de pesquisa. Na universidade eu fui morar sozinho e esse foi um momento muito rico da minha vida porque eu fui morar em Ijuí, fazendo Bacharelado em Informática na UNIJUI.

Eu vivi a universidade de muitas formas, e eu acho que isso me fez uma pessoa em vantagem para atuar em diferentes ações. Eu não era só um aluno de computação. Fiz teatro em um grupo universitário, uma galera que se encontrava às 10h30 da noite para ensaiar, uma coisa muito legal! Dentro do grupo tinha um diretor, e ficávamos lá fazendo peças universitárias, era um grupo muito divertido, a gente se encontrava, ensaiava algumas peças rápidas e apresentava para o campus. Eu também fazia parte do coral universitário, eu era desafinado, apesar de meu tipo de voz ser Barítono (risos). Eu ia nos ensaios todas as terças e quintas, e conhecia muitas pessoas diferentes, de diferentes cursos. Também pude nos últimos anos fazer pesquisa em um projeto com uma pesquisadora (Luiza) da Rússia, que estava visitante na universidade e estudava “os valores dos estudantes universitários nos limites da educação universitária”. Ela queria ver como os estudantes do Brasil se portavam e quais eram os valores de tais estudantes. Como eu era da área da computação, e essa pesquisa era da sociologia, eu tinha que fazer toda a parte computacional, o banco de dados. O questionário dela tinha 303 questões (impresso)… Essa iniciação científica foi muito interessante porque colocou meu pé na pesquisa, uma pesquisa com usuários… com pessoas… um momento muito legal. Também nessa época eu fazia estágio dentro da universidade, e inclusive no último ano eu fiquei um ano a mais porque eu achava que estava sendo muito importante ser bolsista, fazer parte da iniciação científica e ser estagiário. Eu fui estagiário no Setor de Programas, Projetos e Informações,  que era um setor que cuidava dos cadastros de projetos e programas, incluindo  cooperações internacionais. Também geria informações para a universidade. O estágio me ajudou muito,  creio que muitas das capacidades que hoje eu tenho de gerenciamento vem de lá. Coincidentemente, hoje sou diretor de uma fundação que gerencia projetos. Então, no meu curso eu tinha que ralar o dia inteiro (de manhã e de tarde), e a gente se reunia todo final de semana pra estudar, ralava em álgebra, em cálculo, nas linguagens de programação… uma coisa que posso dizer é que eu não gostava de tudo da minha graduação… De fato, eu não gostava de várias matérias, mas eu tinha que passar por tudo, pois eram pré-requisitos que eu tinha que vencer, como por exemplo álgebra, para poder fazer as disciplinas que eu gostava, essas mais de engenharia de software e de gerência.

Depois que fui fazer mestrado na UFSC, aceitei o desafio de mudar tudo novamente e ir para Cuiabá ser professor universitário por lá… depois veio o Doutorado na UFF com sanduíche na Universidade de Coimbra. Já doutor, prestei concurso na UFMT e retornei ao Mato Grosso, local em que gosto muito de atuar. Sou muito realizado por ter passado por diferentes instituições, nas quais aprendi muito e criei muitos laços.

Cada lugar que você passa agrega valor à sua rede, ainda mais quando você busca se envolver, colaborar e se comunicar. Sair da “zona de conforto” é um delicioso desafio.

Isa:
Vale lembrar que nós não somos únicos, a gente precisa estar relacionado com outras pessoas, com as outras áreas. Acho que essa interdisciplinaridade é muito importante para nós profissionais da computação.

Cris:
Sim, essa não é uma tarefa fácil né Isa, você sabe, você também faz trabalhos interdisciplinares e nos questionamos muito o que é fazer um trabalho interdisciplinar. A gente publica muito com pessoas da computação, mas, a presença nas publicações de pessoas de outras áreas ainda é um desafio. Eu acho que é por aí que caminha a ciência, nós temos que cada vez mais atuar nesse contexto interdisciplinar para que possamos solucionar satisfatoriamente muitos problemas.

E o aluno deve viver o sentido da palavra universidade, a gente tem que abrir a cabeça não só para o nosso curso, tem que viver o que os outros cursos oferecem, tudo que está em torno da nossa universidade, na nossa sociedade. Além de curtir toda a parte social desta etapa da vida, as festas e estabelecer os laços de amizade. Muitas das minhas amizades vieram da minha formação pelas universidades, e são ainda fortes os laços pessoais e e/ou profissionais.

Isa:
Lembrando que o professor Cristiano também é hoje o nosso Coordenador da Comissão Especial de Interação Humano-Computador (CEIHC), junto à Sociedade Brasileira de Computação. Este talvez é o comitê mais interdisciplinar dentro da área da Sociedade Brasileira de Computação.

Cris:
Acho que essa é um uma alegria para nós, porque a gente convive com o pessoal de letras, os psicólogos, o pessoal da administração etc., de diferentes áreas. A gente tem também que se aproximar do pessoal de direito, porque nós temos muitas questões éticas e legais impactando no desenvolvimento de sistemas. Acho que é por aí mesmo que nossa comunidade continua seguindo. Temos uma série de desafios prospectados pela comunidade para o período de 2012-2022. Esses e outros temas, nesta área tão emergente de pesquisa e desenvolvimento, precisam de muitos olhares. E falando da nossa comunidade de IHC, ela é uma alegria, uma família, muita gente legal. Sou muito feliz lá! Aliás, nossas comunidades ligadas à SBC, com as quais tenho mais proximidade, são muito legais!

Isa:
E quais as suas ações hoje que você pode caracterizar de maior importância?

Cris:
Eu posso dividir em ações de gestão, de pesquisa e de extensão, apesar de não estarem desassociadas. O ensino está sempre conosco, docentes!

Eu vou começar com Meninas Digitais, que é um programa para incentivar as meninas dos últimos anos do ensino fundamental e do ensino médio a seguirem carreira na área das exatas. Esse programa se espalhou pelo Brasil. É um programa muito bonito, porque em 2010, quando a gente começou, queríamos ver o que as pessoas achavam dessa ideia de fazer ações no ensino fundamental e médio, e também no ensino técnico. Vamos às escolas, buscamos fazer esse processo vocacional de mostrar para as meninas que a informática também é uma boa opção de carreira profissional. O que temos percebido nos últimos anos é uma diminuição muito grande do número de mulheres na área de computação, e então pensamos em como melhorar isso. O Workshop de Mulheres na TI (Women in Information Technology (WIT)) já existe a muito tempo, inicialmente organizado  pelas professoras Karin Breitman, DI-PUC Rio e Claudia Bauzer Medeiros, IC-UNICAMP, e em 2010 surgiu uma vibração, em discutir, incentivar ações e criamos o programa com incentivo dessas pesquisadoras.

O programa Meninas Digitais, agora institucionalizado pela SBC, tem na coordenação a parceria da professora Silvia Amélia Bim da UTFPR, e atualmente temos diversos multiplicadores, são cerca de 30 formalizados e vários ainda não formalizados em suas instituições. Muita gente do bem! Caso tenha interesse, você pode fazer um projeto e cadastrar na sua universidade, e neste você deve se comprometer (seus alunos e/os professores) a fazer ações em algumas escolas. Essas ações podem ser oficinas, minicursos, receber os alunos para conhecer a universidade, etc. Então, você pode atuar tanto nas escolas quanto na universidade,  e não somente como extensão. Nós, por exemplo, temos realizado análises dos experimentos e publicado os resultados. Agora nós tivemos dois artigos na Conferência Latino Americana de Informática (CLEI) que vai ser no Chile. Esses dois trabalhos são bem legais, sobre experimentos realizados no programa com colaboradores de diferentes instituições. Também queremos ver como o programa pode impactar na escolha da carreira, na escolha (ou não) pela computação, mas isso é a longo prazo.  A gente não consegue prever o impacto nesses primeiros cinco anos, mas nos questionamos: qual será o impacto disso no futuro? Teremos mais mulheres da nossa área ou não? Esse tipo de pesquisa é importante e tem gente fazendo mestrado e doutorado nesta área. Por exemplo na UFMT, a professora Karen Figueiredo está fazendo doutorado sobre gênero e tecnologia no Programa de Pós-Graduação em Educação. Temos também pessoas em programas de pós-graduação ligados à tecnologia, por exemplo na UTFPR tem o programa em Tecnologia e Sociedade, e eu fui até em um banca lá, de um trabalho da Fabiana Lima, orientada pelo Professor Luiz Ernesto Merkle, sobre o assunto. Eu acho muito interessante, não só a gente fazer a extensão e socializar artigos, mas também fomentar na pós-graduação esse tipo de pesquisa, mais bem trabalhadas, com base teórica e aplicadas, fazendo alguns estudos longitudinais (que levam tempo de serem realizados), por exemplo.

No tocante à gestão, sempre acabo por me envolver com ela. Já coordenei laboratórios, cursos, fiz parte de muitas comissões, criação de cursos… E agora estou diretor da Fundação Uniselva, que é a fundação de apoio à UFMT. Ela funciona como um escritório de projetos, que auxilia no gerenciamento desses, em todas as áreas do conhecimento, atuando com órgãos governamentais, empresas, pesquisadores, docentes, técnicos… fazendo a ponte entre eles. É uma empresa dentro da Universidade, e estar a frente dessa organização é um compromisso de muita responsabilidade e aprendizado. Como diz Bethânia “estou ali aprendendo meu ofício” e, com sorte, junto com pessoas muito competentes.

Em relação à pesquisa, algumas vezes eu até me questiono da diversidade de temas e áreas em que estou atuando… e os alunos trazem muitos temas pra gente. Na área de interação humano-computador tenho me dedicado mais ao legado digital pós-morte. Esse tema a gente trouxe mais fortemente para o Brasil, e eu estou muito feliz porque hoje temos vários grupos de pesquisa que estão envolvidos e trabalhando conosco, por exemplo, eu citaria a PUC-Rio e a UFMG. Nós estamos em colaboração, e alunos de pós já estão fazendo pesquisas nesta área. Na graduação temos a colaboração da UNB, com a professora Aleteia Favacho, com trabalhos de conclusão de curso muito legais sobre o tema.

Muitos alunos de computação se interessam  por pesquisas nessa área, mas eles também querem outros temas. Por exemplo, neste ano estamos trabalhando um pouco com jogos junto com a pesquisa de legado pós-morte, eu tenho um aluno que está investigando a questão do ‘bem digital’, exemplificando, se você tem um monte de créditos em um jogo, se você comprou 500 reais em créditos e você falece, então isso deve ser tratado como um bem que as empresas de software devem repassar os créditos para um herdeiro seu? É engraçado porque eu não pensava nisso, mas um aluno da iniciação científica me trouxe esse tema.

Também trabalho com outros tópicos nesta pesquisa, o tema legado digital pós-morte é uma pesquisa delicada, mas que tem gerado boas reflexões. Temos tentado ter uma equipe multidisciplinar para tal, o que é desafiador.

Tenho sido convidado para diversas palestras sobre o Meninas Digitais e sobre o Legado Digital pós-morte e isso, por si só, já mostra o interesse pelos temas.

Eu também tenho investido na área de computação ubíqua, que é uma tendência. Os dispositivos móveis estão ligados a diversos aspectos, é possível por exemplo, trabalhar com questões da engenharia de software e inovação dos produtos. É interessante que esse tema é mais facilmente trabalhado conjuntamente com as atividades de ensino, em sala.

Eu também trabalho nas perspectivas de governo eletrônico, que foi o tema da minha tese de doutorado. Sempre digo a todo mundo que a tua tese “não é o fim” do seu percurso, terás outros temas… Tenho trabalhado menos com o tema da tese do que com os outros temas que eu aprendi depois do doutorado, mas eu gosto muito de trabalhar com governo eletrônico, em especial com a participação popular dos cidadãos na vida pública por meio de tecnologias, que se chama e-participation (ou e-participação).  Aqui no Mato Grosso nós temos alguns convênios interessantes com alguns órgãos do governo, em que a gente realiza ações de extensão, pesquisa e desenvolvimento tecnológico e tem conseguido desenvolver algumas pesquisas envolvendo a área de dados abertos governamentais, a área de transparência pública, a modelagem de processos… Na minha tese trabalhei com comunidades virtuais (antes de termos as famosas redes sociais em alta) e essa parte da tese me aproximou muito da área de IHC e sistemas colaborativos. Então, essas são algumas áreas que eu gosto muito na computação.

Uma outra área (que é um outro lado meu) é a das tecnologias na educação. Sou credenciado no Programa de Pós-graduação em Educação da UFMT.

Eu oriento hoje alunos de mestrado e doutorado na linha de pesquisa “Formação de professores e organização escolar”, e dentro dessa linha, eu e a professora Kátia Alonso,  atuamos com as tecnologias na educação.  Temos alunos trabalhando com educação a distância,  gênero e tecnologias, temos muitos trabalhos também nas escolas, relacionados às tecnologias. Temos alunos que vem das secretarias de educação, que vem de escolas e de outros órgãos, e trazem problemas do mundo real para investigarmos. O programa na educação tem um viés muito menos instrumental do uso das ferramentas computacionais, com uma pegada na discussão mais educacional, que é um desafio pra mim… eu confesso que nós somos muito sistemáticos, gostamos bastante de modelos, de métodos, e na educação eles fazem muitas pesquisas qualitativas, e na pesquisa qualitativa as coisas não são  como a gente faz na área de exatas, ela se expande em reflexões, existem múltiplos olhares ao lidar com os objetos de pesquisa… isso realmente é um desafio… Aprendi e tenho aprendido muito nesta área! Acho que aqui no Brasil nós temos excelentes estratégias de educação a distância, temos muitos grupos consolidados, e acho que a gente tem que investir, por exemplo, em processos de ensino-aprendizagem utilizando ferramentas como o AdaptWeb que vocês aí na UDESC têm dado continuidade ao projeto da UFRGS e UEL. Eu acho que é isso que a gente tem que criar, esses ambientes de experimentação que são ricos, que são nossos, e trabalhar em cima deles como vocês têm feito com a gamificação e a colaboração, que são tendências na área de informática.

Isa:
Obrigada! Vou fazer mais algumas perguntinhas pra você: primeiro em relação à revista Horizontes, o que a gente pode esperar dela, eu sei que você está junto com a gente colaborando nessa repaginada da revista, então o que o pessoal pode encontrar de novo, o que a gente pode esperar da revista?

Cris:
Eu acho que a Revista Horizontes foi uma revista que nasceu muito feliz, desde quando iniciou, anos atrás, ela sempre foi muito respeitada… mas ficou em stand by.

Agora ela ressurgiu remodelada, está repaginada. Eu parabenizo aos editores da revista e ao diretor de publicações da SBC, José Viterbo, porque deram uma nova cara a ela. Ela busca se aproximar dos alunos da graduação, dos problemas que enfrentamos no dia-a-dia, não só das questões técnicas, mas das questões sociais e que fazem parte da nossa profissão… então acho que a maneira que a revista foi projetada, com diferentes visões e colunas, está alinhada com essas questões. É um conjunto de colunistas de primeira, já andei lendo algumas matérias. Aliás uma das colunistas abordou o programa Meninas Digitais. A ideia é que todos possamos propor pautas para a revista, hoje em dia a gente tem que trabalhar colaborativamente. Você estudante, você professor, você do mercado: o que você tem para contar para os nossos colegas da Sociedade Brasileira de Computação? Convido todos os nossos colegas da área a enviarem sugestão de pautas, procurando os colunistas. Aproveitem essa vibe 2.0 da web!

Isa:
E agora falando um pouquinho mais focado para o nosso público, especialmente para os alunos de graduação: Que dicas e conselhos você tem para o pessoal ingressar na área ou para aqueles que acabaram de ingressar na área de computação? Quais são os desafios e oportunidades? O que eles podem esperar? O que eles poderiam fazer para se destacarem?

Cris:
Eu acho que todo esforço é muito individual, mas a gente tem que saber ser individual e também tem que saber ser coletivo durante o curso. Então acho que é muito importante você que está começando na área, primeiro ter consciência que terá dificuldades em algumas coisas. A gente tem alguns poucos alunos que às vezes não tem dificuldades em quase nada. Esses, muitas vezes, podem ser “uma ponte” para aqueles que estão com algumas dificuldades. Muitas vezes você acha que as pessoas não vão te dar ajuda, mas basta você dizer “olha não entendi esse cálculo”, e seu colega está ali para te ajudar… Eu sei, está uma loucura essa nossa vida, que parece que a gente não dá conta de parar e ajudar, de conversar com um colega, contudo é muito importante a gente saber que existem coisas que a gente consegue fazer com facilidade e outras que a gente tem que se esforçar um pouco mais pra fazer. Eu por exemplo, nunca fui um aluno que gostei de programação, nunca gostei, não é da minha pessoa… Mas adorava ler, escrever, pesquisar… adoro fazer análise, fazer requisitos, coisas que outros alunos, outros colegas programadores, diziam que era chatice fazer modelos, fazer diagramas. Então eu acho que não dá para todo mundo gostar de tudo, mas todo mundo precisa passar por tudo… e temos espaços para todos! Hoje eu percebo o quanto é importante no gerenciamento de software saber o conteúdo de banco de dados, de administração, das linguagens de programação, das matemáticas etc. Hoje eu vejo as peças se encaixarem… na nossa época de graduação dizia: para que álgebra? Mas quando você tiver estrutura de dados,  computação gráfica… você vai ver que precisa de uma série daqueles conhecimentos. Talvez a universidade não dê conta de mostrar a relação entre os conteúdos, mas depois o aluno acaba fazendo uso deles, então é importante.

Também, não adianta ficar esperando melhorias do curso – para mudar a grade do curso, se você acha isso legal, leve pra seu centro acadêmico, se achar que é importante, leve para o coordenador do curso, que pode reavaliar sua grade com seus órgãos colegiados. Nós estamos precisando reformular muitas grades curriculares no Brasil, mas isso também é um processo burocrático, que não é fácil, então temos que correr atrás.

Eu acho que o aluno tem que ter atitude e quando eu falo ter atitude, é ser proativo, ser dinâmico, ser colaborativo… Quantas vezes eu trabalho o dia inteiro e vou dar aula noite… chego lá super cansado, e vejo alunos sentados, muitos com aquela cara de “um dia de trabalho”, mas junto todo mundo vai entrando no conteúdo! E trabalhamos em conjunto, um tira dúvida do outro, projeta junto,  se motiva mas também saber ajudar e pedir ajuda!

Isso não vale só para os conteúdos, serve também quando enfrentamos problemas pessoais, temos dúvidas, tristezas, desilusões… O caminho não é ficar “remoendo” as coisas mas sim buscar ajuda, seja com colegas, professores, seja com órgãos próprios da instituição. Muitas vezes, refletindo no coletivo, vemos novas perspectivas para dado problema que estávamos pensando somente pela nossa ótica.

E também lembrar que os professores estão lá realmente como companheiros de jornada, como instrutores, facilitadores da aprendizagem, porque nós não sabemos tudo, mas nós já sabemos uma parte útil aos alunos, que estão nesse processo de formação também querendo saber essa parte.  Mas, às vezes eles não entendem o conteúdo, tem problemas, não te procuram… então eu acho que tem que ser proativo, procurar ajuda, buscar seus pares e conversar com eles, e principalmente, fazer os trabalhos – vou protestar!!! (risos). Porque isso é uma coisa que eu tenho sofrido muito e que acho que não era tão gritante antigamente… os alunos não postergavam tanto como hoje…, está no último dia de entrega de um trabalho e a galera pede mais prazo… a gente tem um calendário a cumprir… então acho que às vezes deve-se ter um pouquinho mais de organização da vida acadêmica pra você poder fazer as coisas. Acho que a galera tem que se motivar e se organizar melhor. E ter cuidado pois a Internet, por exemplo, nos consome um tempo precioso. Quantas horas de navegação poderiam ser convertidas em estudo?

Eu também acho que deve-se viver a universidade. Viver a universidade é muito importante, transitar dentro dela. Aqui na UFMT os alunos podem cursar uma disciplina em outros institutos, então os alunos vão fazer fotografia na comunicação, estatística no curso de estatística, vão fazer antropologia… Fazer cursos de extensão, como um curso de inglês do Departamento de Letras por exemplo. Eu acho que isso é viver e aproveitar os espaços de aprendizagem, sociais e culturais que as universidades têm… Amostras, exposições, esportes… vamos viver a universidade que isso também traz um senso de comunidade… nós somos uma comunidade universitária, então se a gente vai procurar esses espaços e se aglomera por interesses, acaba conhecendo outras pessoas. Assim, a gente consegue viver um pouco melhor o verdadeiro sentido da “universidade”! Acho que também devemos participar voluntariamente de ações, ajudar na busca de uma sociedade melhor, acho muito legal isso. O Meninas Digitais, por exemplo, é um programa voluntário, então muitas meninas estão conosco voluntariamente… ainda bem, pois temos muito a fazer ainda. Também, atuo como Secretário Regional da SBC no Mato Grosso e, este envolvimento voluntário, é muito agregador.

Amo estar na docência, amo ser um pesquisador… É por isso que às vezes trabalho aos sábados e domingos para escrever um artigo e acho uma maravilha! Faço com gosto! Mas cada um tem que achar o que gosta. Você tem que respeitar o seu timing, mas vá procurar aquilo que vai lhe dar mais ânimo, mais prazer, dentro da sua área. Se você gosta de redes vai pra lá, se você gosta mais de engenharia de software vai lá, mas escolha um caminho… ou alguns! E os outros assuntos da área são só pré-requisitos para o seu sucesso. Gosto muito da gestão também, de pensar os processos organizacionais, a gestão de pessoas, as questões sistêmicas. No mercado, temos muito espaço para gestores que vem da área de TI. Em uma universidade, por exemplo, é desafiador, ainda mais se você quiser alinhar gestão, docência e pesquisa. “Segurar muitos pratos” tem custos e benefícios, parafrasendo Caetano “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Isa:
Cris muito obrigada por essa conversa gostosa! Tenho muito a agradecer você e essas parcerias que a gente sempre faz! Muito obrigada por essa primeira entrevista na Revista Horizontes, na coluna “A hora do Chat”. Eu acho que vai contribuir muito para que as pessoas que estão iniciando na área possam ouvir alguns conselhos e possam estar mais atentos às ações nas suas universidades, descobrindo o que os professores têm feito, entrando voluntariamente na iniciação científica ou em projetos de extensão, fazendo a diferença para a sociedade, que é o que a gente mais quer – mudar o mundo que a gente vive para melhor sempre! E acho que um pouco da sua fala hoje está relacionada a isso… a gente quer ver mais pessoas com muito ânimo, com muita força, que tem vontade de mudar a sua própria vida e a vida das outras pessoas!

Muito obrigada por essa conversa!

Cris:
Eu que tenho que agradecer pelo longo “chat”. Fazer uma entrevista não é fácil, falar assim livremente, deixando o pensamento fluir. A gente está acostumado com o texto escrito, mais formal… mas gostei muito do formato e desejo muito sucesso à revista e a sua coluna, que já começa deixando a gente bem à vontade. Galera, vivam a Universidade e tenham muito sucesso nesta nossa crescente área!

Isabela Gasparini
Sobre Isabela Gasparini 7 Articles
Isabela Gasparini tem doutorado em Ciência da Computação pela UFRGS, com período sanduíche na TELECOM SudParis. É professora do Departamento de Ciência da Computação da UDESC e atua em dois programas de pós-graduação, o PPGCA - Programa de Pós-Graduação em Computação Aplicada e o PPGECMT - Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências, Matemática e Tecnologias. Atua na área de Interação-Humano Computador, trabalhando principalmente nos seguintes temas: adaptabilidade e personalização, avaliação de usabilidade, modelagem do usuário, acessibilidade, tecnologia educacional, sistemas de recomendação, sistemas cientes/sensíveis ao contexto, aspectos culturais, learning analytics e gamificação. Mais informações em: lattes.cnpq.br/3262681213088048