Ada Lovelace e o Primeiro Programa de Computador

Charles Babbage inventou em 1835 a Máquina Analítica [1], o primeiro computador mecânico moderno, e por isso é considerado o pai da computação. O que pouca gente sabe é que ele tinha como parceira uma mulher, Ada Lovelace.

Máquina Analítica

Ada — mais conhecida hoje em dia por ter sido homenageada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos ao nomear sua linguagem de programação imperativa orientada a objetos de “Ada” — nasceu em Londres em 1815 [2], sendo a única filha legítima do famoso poeta Lord Byron.

Ada não teve um relacionamento com seu pai. Quando ela tinha apenas 4 meses, ele se separou de sua mãe, deixando a Inglaterra para onde nunca mais voltou. Anne Isabella, a mãe de Ada, passou sua vida ressentida com Byron e não mediu esforços para evitar que sua filha se tornasse uma artista como ele. Assim, desde cedo ela incentivou o interesse de Ada por matemática e ciências exatas. Apesar disso, Ada sempre manteve um grande interesse pelo pai, mantendo próximos seus amigos e pedindo ao final de sua vida para ser enterrada ao lado dele na Igreja Santa Maria Madalena, em Hucknall [3].

Retrato de Ada Lovelace

Ainda adolescente, Ada conheceu Charles Babbage quando ele trabalhava na Máquina Analítica. Durante esse tempo, Ada participou da tradução de um artigo sobre a máquina e adicionou suas próprias notas ao longo dessa tradução [4, 5]. Essas notas detalhavam como operar a máquina de forma algorítmica, por isso são consideradas por muitos o primeiro programa de computador já escrito.

Um dos diagramas das notas de Ada

Infelizmente, a Máquina Analítica nunca foi totalmente completada. Assim, o programa de Ada não pôde ser testado e só alcançou fama em 1953, mais de um século depois, quando foi publicado por B.V. Bowden, no livro “Faster than Thought: A Symposium on Digital Computing Machines”.

Aos 20 anos, Ada casou-se com William Lord King, que três anos depois seria nomeado Conde de Lovelace, tornando-a Condessa. Após o casamento, eles passaram a lua-de-mel em Worthy Manor [6], propriedade na cidade de Porlock. William reformou o local para a ocasião e lá se tornou um refúgio de verão para o casal. Babbage visitava Ada com frequência na propriedade e era comum encontrar os dois caminhando e conversando no terraço sobre a invenção, o que acabou sendo apelidado de Philosopher’s Walk.

Ada recebeu inúmeras homenagens após sua morte. Além da linguagem ada, a medalha britânica de mérito em Ciência da Computação tem seu nome, assim como a Conferência Britânica Anual para Mulheres na Graduação na Área de Computação (BCSWomen). Além disso, em todo mês de outubro comemora-se o “Dia Ada Lovelace”, evento para exaltar o perfil das mulheres em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, criando novos modelos para meninas e garotas iniciantes nesses campos. Em 2017, ele será comemorado no dia 10.

Ada Lovelace Day

Em 2015, Sydney Padua lançou a graphic novel “The Thrilling Adventures of Lovelace and Babbage” contando a história de Ada e Babbage em um universo paralelo. O livro recebeu comentários positivos da crítica e foi indicado para o Eisner Award em 2016.

Visite:

[1] A Máquina Analítica pode ser encontrada no Science Museum em Londres.
[2] Ada morou próximo à St. Jame’s Square em Londres. Como é comum no Reino Unido, o local é marcado por uma placa azul.
[3] A Igreja Santa Maria Madalena, em Hucknall, foi construída entre os séculos XII e XIV e é onde se localizam as sepulturas da família Byron, incluindo o poeta e sua filha Ada.
[4] Muitas cartas entre Ada e Babbage podem ser encontradas na Biblioteca Britânica.
[5] O Museu Powerhouse em Sydney, na Austrália, também possui algumas cartas trocadas entre Ada e Babbage durante a construção da Máquina Analítica.
[6] Worthy Manor é uma propriedade na cidade de Porlock que hoje faz parte do Exmoor National Park e é aberta ao público.

Karina Mochetti
Sobre Karina Mochetti 4 Articles
Possuo graduação em Engenharia da Computação e Mestrado e Doutorado em Ciência da Computação, todos pela UNICAMP. Atualmente sou Professora Adjunta da Universidade Federal Fluminense (UFF) e uma das coordenadoras do Projeto #include , um grupo para motivar mulheres na área de TI. Também sou uma das editoras da revista SBC Horizontes.