A rendição ao celular

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Que ele nos acompanha e é uma extensão das nossas vidas, nós já sabemos! Aonde isso vai dar? Bem, aí vamos deixar para os futurólogos de plantão. Trago aqui neste primeiro texto da coluna “Sociedade online” algumas reflexões sem respostas, mas com muitas interrogações desafiadoras!

O fato é que não vivemos mais sem o celular (e mais alguns dispositivos móveis) e impor limites para seu uso tem sido um desafio. Você já esqueceu seu celular em algum lugar e ficou preocupado? Você já o perdeu ou o teve roubado, com todos os seus dados? Você já se esqueceu de levar o carregador, um acessório indispensável na vida moderna? Esses são cenários cada vez mais comuns na era digital, em que, não é segredo, os smartphones são cada vez mais procurados.

Como as forças do bem e do mal andam juntas, há vantagens em ter um celular facilmente às mãos, porém, muitos desafios. Derrick de Kerckhove, um intelectual belga, afirma: “O homem cria a ferramenta. A ferramenta recria o homem”[1]. Assim, nossa vida segue sendo reinventada e permeada por tecnologias.

Outro dia, tive que enviar meu celular para manutenção. A recomendação que recebi foi de “somente” deixá-lo desbloqueado ou entregar a senha de acesso. Nessa hora, pensei: mas tenho tudo aqui, fotos, e-mails, redes sociais… Quanto às fotos, se não há conteúdo proibido, é confiar que nada irá acontecer. Quanto às contas, o ideal seria deslogar de cada uma delas e depois configurar tudo novamente. Eu tinha pouco tempo para decidir e, no máximo, consegui mudar a senha. Passei os olhos sobre as contas, procurei algumas configurações, mas, mesmo com toda expertise de um cientista da computação, não consegui achar algumas funções. Então, o jeito foi confiar na empresa! Claro, a empresa não ficou com meu chip, então poderia ver tudo, mas não “responder por mim”.

Nesse dia, fiquei por duas horas sem celular. Um ser meio sem rumo, sentindo-me incomunicável. Precisei falar com algumas pessoas. E quem disse que eu sabia algum número de cor? E aqui aproveito para viajar no sentido da expressão “de cor”, que não quer dizer que saibamos de cabeça, mas de coração. Então, meu coração está vazio? As pessoas me ligaram, o celular sequer registrou a ligação pela falta do chip. Perdi oportunidades, pois só com o celular poderiam me achar. E me senti levemente culpado. Revisitando o filósofo canadense McLuhan, eu poderia dizer que havia perdido “o prazer de me sentir no controle” [1]

Nesse dia, ainda pensei: “e meu bendito backup”! A memória vive lotando, e estar com a cópia de segurança em dia requer disciplina! Pobres dos meus herdeiros se quiserem entender todas as minhas informações digitais!

Escravos da TecnologiaNa sociedade, ao mesmo tempo em que se tem o celular como um bem de consumo de primeira ordem, ele é o vilão de muitas histórias. Quem nunca ouviu falar: “ele não sai do celular”, “larga esse celular e conversa com o pessoal”, e por aí vai.  O fato é que o mundo oferecido via celular pode ser tão vasto e fascinante, levando os usuários por tantos caminhos… que parecemos nos desconectar do mundo real ao interagir com esse outro mundo, que também é nosso. Uma sociedade virtualizada, digitalizada, conectada e seus desafios.

Na educação, escolas e professores não sabem bem como agir com ele. De fato, é um artefato que está ali, nas mãos de todos. Artefatos diferentes em mãos diferentes. Como usá-lo com fins educacionais? Esse é um desafio e, pela falta de resposta de alguns, tem-se tentado regulamentar o uso do aparelho. Em alguns estados, o celular só pode ser usado com “fins pedagógicos” dentro da sala de aula. Mas como controlar por onde o aluno está “navegando”? E como introduzi-lo de forma a obter ganhos na sala de aula?

Na vida em família, impõe-se uma nova dinâmica. Se, tempos atrás, cada um assistia a televisão em diferentes cômodos ou lia um livro, hoje isso é feito com o celular na mão. Ou então, tudo isso é feito nele! Ao promover a socialização com o mundo, o celular também nos “tira” do espaço físico em que estamos e nos remete a essa outra dimensão. Assim, interações no mundo real com um celular em mãos não são fáceis. Você já ouviu ou teve que perguntar: “está me escutando?”.

Por outro lado, o celular nos aproxima. Com muitos grupos de família, amigos, colegas, podemos, mesmo distantes, sentirmo-nos próximos e, quando nos encontramos fisicamente, mesmo ficando longo tempo sem nos vermos, estamos atualizados e mais próximos. E, se alguém não participa ativamente do grupo, a gente logo se pergunta: “Por que fulano está tão quietinho”?

Em alguns grupos, falar de determinados assuntos, como política, religião e futebol (temas sempre polêmicos), é até proibido. Cada grupo estabelece suas regras próprias, mesmo que não explícitas. Ao colocar uma notícia em diversos grupos, simultaneamente, é interessante ver os diferentes comportamentos.

Zygmunt Bauman, sociólogo polônes, ao se referir ao “eu” dos usuários nas redes sociais, alerta: “As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.”. Pense no que esta frase quer dizer e tente lembrar de alguns casos que possa ter vivenciado!

Na esfera governamental tem-se também debatido a própria democracia frente ao poder de opinião que os usuários conquistaram com as tecnologias. Por todo lado, temos cidadãos opinando, a veracidade das informações sendo questionada, muitos prós e contras. O fato que é este poder precisa ser canalizado para que melhorias possam ser feitas na vida pública. Para isso, o cidadão precisa estar informado (e corretamente) e usar canais que cheguem até os governos (o que requer governos que queiram ouvir a população via tecnologias).

E os jogos, que estão sempre nos chamando para mais uma batalha?! E as músicas, disponíveis em diferentes mídias e programas? E tantos aplicativos legais, para tanta coisa… um mar de possibilidades. A informação nos alimenta!

Se facilmente chegamos a um hospital com o apoio de um aplicativo de celular que nos mostre a melhor rota, por outro lado nossa saúde também pode ser afetada negativamente pelo uso excessivo do aparelho. Além das questões ergonômicas, dos esforços com nossa cervical e das lesões por esforço repetitivo, estudos têm apontado os efeitos da radiação de microondas na gama de frequência do wi-fi.

Outro dia liguei para minha mãe e perguntei: “Está tudo bem?”. E ela já foi falando: “Não tá não”. Eu, preocupado, já disse: “o que houve?”, imaginando algo mais grave. E ela: “Meu celular está louco, pedindo uma senha, não consigo usar”. Eu respirei, parcialmente aliviado. Não era nada grave, mas eu tinha que ajudar com esse problema “a distância”. E não consegui, pois a tarefa exigia muitos detalhes! Uma amiga foi até a casa da minha mãe e resolvemos interagindo por meio de outros celulares.

284455-jean-jullien-01-650-32e9147584-1484635410Certamente, iremos usar cada vez mais nossos celulares. Entre a bênção e a maldição precisamos ter consciência sobre o seu uso.  Por isso, proponho esta reflexão, a qual pode ser realizada com nossos alunos em disciplinas como Tecnologia e Sociedade.

Para ilustrar essa matéria, utilizei imagens do renomado francês Jean Jullien, cujo tema predileto é a ironia sobre o vício da sociedade moderna por celulares e redes sociais. Outras ilustrações foram retiradas desta reportagem. Essas ilustrações tem tudo a ver com a matéria, não é?!

Referência:

[1] Do livro: KERCKHOVE, D. A Pele da Cultura – investigando a nova realidade eletrônica. São Paulo: Ed. Annablume, 2009.

Cristiano Maciel
Sobre Cristiano Maciel 1 Article
Cristiano Maciel é Doutor em Ciência da Computação. Atualmente é Professor Associado I do Instituto de Computação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), professor do Programa de Pós-Graduação em Educação, pesquisador do Laboratório de Ambientes Virtuais Interativos (LAVI) e Laboratório de Estudos sobre Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação (LeTECE); e Diretor Geral da Fundação de Apoio e Desenvolvimento da UFMT (Fundação Uniselva). É Secretário da Regional Mato Grosso da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e Coordenador do Programa Meninas Digitais.