Foto da Professora Silvia Bim, professor Ecivaldo Matos e professor Cristiano Maciel no WIT 2017
Professor Ecivaldo Matos (centro) acompanhado da professora Sílvia Bim e do professor Cristiano Maciel (coordenadores do Programa Meninas Digitais) no WIT@CSBC 2017.

Entrevista: Equidade de Gênero e Computação Pervasiva com Ecivaldo Matos

Quem acompanha a revista Computação Brasil da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), viu que na sua última edição (n.°34 – julho/2017) foram abordados temas relacionados à “Computação para tudo e todes”, desde Educação, Democracia, Realidade Virtual e Aumentada até Equidade de Gênero. Para escrever o artigo sobre Equidade de Gênero (Computação Brasil, n° 34, página 43), eu realizei entrevistas com o professor Ecivaldo Matos (UFBA) e com a professora Sílvia Bim (UTFPR) sobre Equidade de Gênero e Computação Pervasiva. Como o espaço na revista para abordar esse tema tão interessante foi curto, trago na íntegra para a Coluna Meninas Digitais as entrevistas divididas em duas partes.

Nesta primeira, a entrevista com o professor Ecivaldo, Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, Professor Adjunto do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal da Bahia e líder do Programa Onda Digital, destaca-se a importância da participação de todos e todas na produção tecnológica e na discussão sobre equidade de gênero, mantendo o compromisso com uma educação mais inclusiva.

Coluna Meninas Digitais: Por que é importante a participação de homens na discussão sobre equidade de gênero na computação?

Ecivaldo: As mulheres não estão sozinhas. As mulheres e os homens sejam cis ou trans não estão sozinhes. Vivemos em sociedade, afetamos e somos afetados pelos outros. Portanto, de nada adianta a discussão ficar apenas entre as pessoas diretamente afetadas. Serão apenas um conjunto de pessoas incomodadas? Não, não pode ser assim.

Seja na discussão sobre equidade de gênero ou em qualquer outra, se estamos falando de equidade, não podemos deixar de falar sobre alteridade. Se temos mais homens na Computação, talvez seja porque nós (homens) aprendemos que essa área é nossa. Assim como elas (mulheres) foram “ensinadas” a pensar que precisam aprender a cozinhar para os maridos e filhos e/ou ser uma boa enfermeira ou professora. Essa lógica está errada.

Por que hoje o exercício da computação (e das engenharias e outras exatas) é um lugar de domínio masculino? Talvez porque a sociedade nos ensinou errado. Bem, se isso for verdade precisamos então mudar a sociedade. Quem forma a sociedade? Homens e mulheres, cis e trans, com seus preconceitos, visões de mundo, costumes, ideologias.

Portanto, se há discussão sobre equidade de gênero (seja na computação ou em qualquer outra área/espaço), todos devem participar. Todos devem se sentir afetados por essa temática.

“Se há discussão sobre equidade de gênero (seja na computação ou em qualquer outra área/espaço), todos devem participar. Todos devem se sentir afetados por essa temática.”

Coluna Meninas Digitais: No seu ponto de vista, quais são os desafios que a área da computação precisa enfrentar para tornar seus setores (Ensino, Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação) mais inclusivos?

Ecivaldo: Primeiramente reconhecer que a academia e os campos de atuação da computação não são inclusivos. Não estou falando apenas da necessidade de cotas, mas da necessidade da pluralidade social se refletir dentro da universidade e nos espaços de trabalhos. Só assim poderemos começar a reconhecer que a universidade é um espaço social. Tornando-se efetivamente um espaço de produção de conhecimento socialmente significativo. Enquanto os ambientes de trabalho possam receber profissionais com múltiplas concepções e experiências socioculturais.

Enquanto estudante, trabalhei em projetos de “inclusão social” em que trazíamos jovens do entorno da universidade para dentro dela. Ouvi de vários deles “-Isso aqui não é para mim.”. Quando eu perguntava o porquê, ouvia sempre algo do tipo “- Eu não tenho como estudar para chegar aqui”. Em tempos de políticas afirmativas de acesso à universidade, precisamos nos debruçar sobre as políticas de permanência.

Receber os calouros e, desde o início, separá-los entre “os bons” e “ruins”, leia-se “aqueles que já vieram semiprontos” e “aqueles que realmente precisam de mais esforço dele e da universidade” não é o caminho. Vejo isso acontecer. O que precisamos é que as políticas de permanência existam, mas além disso, elas sejam orgânicas. Que toda a comunidade universitária as reconheça como uma necessidade para o bem harmônico do conjunto. Para que possamos ter novos líderes e profissionais brilhantes no ensino, na pesquisa, na extensão e na inovação tecnológica. Que não percamos a oportunidade de formar “mentes brilhantes” por causa da sua condição social, de gênero ou de raça/etnia.

Além disso, a Computação tão plural é que deve formar sujeitos mais plurais. Rever o significado da Computação de apenas uma área de formação de “nerds”, para uma área atrativa para diferentes perfis e interesses.

“Que não percamos a oportunidade de formar “mentes brilhantes” por causa da sua condição social, de gênero ou de raça/etnia.”

Coluna Meninas Digitais: Como mulheres de diferentes perfis (mulheres negras, mulheres trans, mulheres periféricas etc) podem ser afetadas pelo desequilíbrio de gênero em tempos de computação pervasiva?

Ecivaldo: O desequilíbrio numa área de produção tecnológica como a nossa reflete diretamente nas ideologias, visões de mundo e discursos imbricados nas tecnologias. Pessoas machistas produzem tecnologia com ideologia machista.

Outro dia me peguei discutindo com um colega da área sobre a ideologia por trás de um código-fonte. Pode parecer esquisito em um primeiro momento, mas se observarmos com mais cuidado, perceberemos o quanto “nos colocamos” nos nossos produtos. Essa discussão começou por conta de um algoritmo de reconhecimento facial em que uma mulher precisou prender seus cabelos (crespos) para que pudesse ser reconhecida por ele. Bem, a justificativa óbvia é que o algoritmo não estava preparado para tal situação. Aí veio a pergunta, por quê? Nesse porquê entendemos como as mulheres negras, trans e todas aquelas fora dos padrões dominantes são afetadas. Simplesmente pela desconsideração da sua existência.

Essas mulheres precisam estar do outro lado, da produção tecnológica, em todos os campos, para que possamos ter tecnologia com a “cara” da sociedade plural em que vivemos.

“Pessoas machistas produzem tecnologia com ideologia machista.”

Termino agradecendo imensamente ao professor Ecivaldo pela suas contribuições com os artigos para a Computação Brasil e SBC Horizontes.

Na segunda parte, na próxima semana, será publicada a entrevista na íntegra com a professora Sílvia Bim, coordenadora do Programa Meninas Digitais, não percam!

Nota: Todos os pontos do texto e da entrevista em que notações como asterisco ou a letra x foram usadas no meio de palavras, para incluir gêneros não binários, foram substituídos pela letra e com objetivo de facilitar a leitura por softwares leitores de tela.

Foto da Professora Silvia Bim, professor Ecivaldo Matos e professor Cristiano Maciel no WIT 2017
Professor Ecivaldo Matos (centro) acompanhado da professora Sílvia Bim e do professor Cristiano Maciel (coordenadores do Programa Meninas Digitais) no WIT@CSBC 2017 – Foto por Pedro Neto.
Karen Figueiredo
Sobre Karen Figueiredo 5 Articles
Professora no Instituto de Computação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), pesquisadora no Laboratório de Ambientes Virtuais Interativos (LAVI) e no Laboratório de Estudos sobre Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação (LETECE), coordenadora dos projetos Meninas Digitais Mato Grosso e Delete Seu Preconceito.