Eventos Científicos e a Matriz SBC

Em Computação, eventos científicos são um dos veículos mais importantes para disseminação de conhecimento e, sem dúvida alguma, formam o ambiente mais importante para estabelecer contatos científicos entre pesquisadores e estudantes. Isto é assim no Brasil e também no exterior. A SBC realiza por ano em torno de 40 eventos que reúnem a comunidade de Computação nacional. Tais eventos são fonte de enorme orgulho para a SBC, mas também de preocupação, já que os eventos nacionais estão ameaçados! Neste texto, defendo explicitamente os eventos que a SBC realiza, mostrando os motivos pelos quais acredito que os eventos devam ser preservados. Pretensiosamente, espero convencer tomadores de decisão a batalhar em favor dos eventos da Computação, inclusive a partir de uma perspectiva estratégica.

Além dos eventos, que formam um dos pilares da atuação da SBC, gostaria de discutir brevemente a função das Comissões Especiais (CEs) e das Secretarias Regionais (SRs) da SBC, já que estas duas estruturas estão intimamente ligadas aos eventos. Gosto da visão de que CEs e SRs formam uma matriz na SBC, onde, numa dimensão, as CEs cobrem cientificamente os diversos tópicos da Computação, enquanto SRs, em outra dimensão, cobrem a atuação geográfica da SBC ao longo do país, garantindo assim capilaridade. Hoje, a SBC conta com 27 CEs e 25 SRs. Quando um evento da SBC é realizado num local do país, estamos observando as atividades de uma célula da matriz, isto é, a CE que organiza o evento traz consigo a tradição e cultura estabelecida daquela comunidade, enquanto a SR do local traz a experiência e envolvimento logístico na organização de eventos em uma região. Idealmente, o coordenador de CE e secretário regional devem atuar juntos para o sucesso do evento, já que isso avança o estado-da-arte (importante para a CE) e promove a participação mais intensa da comunidade local (o que é importante para a SR). Sem eventos, nem o estado-da-arte avança nem as regiões se desenvolvem.

De forma geral, a SBC realiza dois tipos principais de eventos: nacionais e regionais. Os eventos nacionais (e.g., SBRC, CBSoft, SBIA, SBGames) têm normalmente longo histórico e, claro, escopo nacional, atraindo pesquisadores e estudantes (principalmente em nível de pós-graduação) de todo o país. Os eventos nacionais também são aqueles que ajudam a manter financeiramente a SBC como Sociedade Científica, que por sua vez reverte para os próprios eventos os recursos arrecadados na forma de apoio logístico, serviços e sistemas. Os eventos nacionais são os mais importantes cientificamente e não raramente atraem um número expressivo de participantes, de forma similar e muitas vezes ultrapassando o número de participantes de evento semelhantes internacionais. Não é raro encontrar palestrantes internacionais impressionados com a ativa e volumosa participação da comunidade nacional nos eventos da SBC. Novamente, isso é motivo de orgulho! Não ter eventos nacionais extinguirá o senso de comunidade atualmente existente, bem como deixará de passar a mensagem aos colegas pesquisadores estrangeiros que no Brasil existe uma comunidade organiza e atuante na área; nossa reputação internacional poderá não ser tão positiva como é hoje.

Os eventos regionais, em complementação aos eventos nacionais, são realizados para atender a uma comunidade local de pesquisadores e estudantes, especialmente em nível de graduação. Os eventos regionais não têm a mesma importância científica que os eventos nacionais. Porém, os eventos regionais (e.g., Escolas Regionais de Informática – ERIs e suas diversas variações) têm a importantíssima função de serem a porta de entrada para a vida e carreira acadêmicas de estudantes mais novos. São os eventos regionais que representam normalmente o primeiro contato que estudantes da área de Computação têm com a cultura científica estabelecida no país. São os eventos regionais, portanto, os principais responsáveis por aguçar a curiosidade acadêmica nos nossos estudantes e assim preparar as próximas gerações, ainda que num passo inicial, para o futuro da Computação no país. Sem eventos regionais o acesso à cultura de eventos, tão crítica para a área, se tornará mais difícil, o que prejudicará a atração para o ambiente acadêmico de potenciais futuros pesquisadores.

Mas afinal, porque efetivamente os eventos realizados pela SBC, nacionais e regionais, estão ameaçados? Claro, existe o clássico problema do financiamento dos eventos. Num país onde crises políticas e econômicas levam a cortes da ordem de 50% no orçamento de ciência e tecnologia, não é de se surpreender que os eventos científicos tenham dificuldades financeiras de serem realizados. Porém, há um outro fator que considero tão ou mais crítico para a sobrevivência a longo prazo dos eventos de Computação: o Qualis da CAPES. Os eventos realizados pela SBC têm Qualis menor se comparados a eventos similares internacionais. Com Qualis menor, é evidente que novas gerações de pesquisadores, formados na doutrina de avaliação de programas de pós-graduação vigente, privilegiarão os eventos internacionais (com Qualis maior, mas não necessariamente com melhor qualidade) em detrimento dos eventos nacionais. E gradativamente o senso de comunidade irá se enfraquecer até que, a longo prazo, os eventos da SBC sejam relegados a repositórios de artigos não aprovados no exterior. Isso já é possível de se observar em workshops nacionais, que lutam para sobreviver com um número de submissões muito baixo, algo que não acontecia há 10, 15 ou 20 anos. As mesmas dificuldades que os workshops têm hoje estarão presentes nos eventos nacionais realizados no futuro… a não ser que mudemos esta realidade!

Os eventos realizados pela SBC precisam de um Qualis mais alto para terem chance de sobreviver. Os critérios tradicionais para “qualisficar” os eventos da SBC não são suficientes e adequados porque tais critérios não capturam a importância dos eventos para a manutenção de uma comunidade de Computação forte, unida e atuante. Considerar o h-index de eventos cujos artigos são majoritariamente publicados em Português, por exemplo, é no mínimo injusto. É importante também notar que outras áreas do conhecimento já “qualisficam” seus eventos nacionais de acordo com a importância dos mesmos para suas respectivas comunidades. Se os eventos nacionais em Computação não forem apropriadamente socorridos, a área de Computação também perderá espaço frente a outras áreas “competidoras”. Menciono “áreas competidoras” porque, evitando ao máximo qualquer ingenuidade, há sim competição para acesso aos recursos limitados para pesquisa junto aos governos e agências de fomento. Logo, garantir a manutenção dos eventos da SBC é importante não apenas pelo senso de comunidade e outros motivos mencionados acima; é importante para que a Computação não perca espaço para outras áreas! Evidentemente que se houvesse recursos abundantes, a competição entre áreas seria menos importante. Na escassez de recursos, porém, o acesso aos parcos recursos existentes deve ser feito de forma estratégica, sem ingenuidade. Não privilegiar adequadamente os eventos nacionais de Computação no Qualis é, portanto, ingenuidade da Computação como comunidade.

Lisandro Zambenedetti Granville
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Lisandro Zambenedetti Granville é presidente (2015-2019) da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e professor do Instituto de Informática (INF) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).