Os Professores do Ensino Básico e as Tecnologias Digitais: Uma reflexão emergente e necessária em tempos de pandemia

Os Professores do Ensino Básico e as Tecnologias Digitais: Uma reflexão emergente e necessária em tempos de pandemia

Por Thais Basem Mendes Corrêa Bastos e Clodis Boscarioli

A Educação Mundial encara um desafio sem precedentes frente à pandemia de COVID 19. Estima-se que mais de 1 bilhão e meio de alunos já foram afetados, representando mais de 91% do total de alunos matriculados, sendo que 191 países estão com suas Escolas e Faculdades fechadas, conforme dados extraídos do acompanhamento realizado pela UNESCO no dia 15 de abril de 2020.

Esta situação ainda está longe de melhorar, tendo em vista as orientações de isolamento social e quarentena por todo o mundo. Nesta situação, governos, escolas, professores, alunos e sociedade de todos os países buscam soluções para que o aprendizado não pare, para que as desigualdades não aumentem e para que alunos possam manter-se na ativa durante este período, sem sentir-se afastado de seus estudos.

No Brasil, o cenário é o mesmo. Cidades esvaziadas, comércio com funcionamento restrito, escolas fechadas, alunos em casa e professores com a árdua missão de manter a oferta de Educação em casa e o vínculo com a escola, mesmo a distância.

A UNESCO analisa que este cenário terá repercussões sistêmicas, indo além das questões da educação em si. Pontua-se, por exemplo, sobre a nutrição e proteção dos alunos que dependem da escola para tal e o despreparo de pais para dar o suporte necessário à educação a distância no lar, além de lacunas nos cuidados com as crianças, quando faltam alternativas aos pais durante o horário de seu trabalho, e que antes recorriam ao ambiente escolar (ONU Brasil, 2020).

Em paralelo a isso, emerge a discussão sobre o acesso desigual à tecnologia e a uma boa conexão de internet, sendo este um obstáculo para dar continuidade ao estudo remoto, especialmente para os alunos menos favorecidos. Outro ponto considerado relevante é a falta de atividades sociais e interações humanas fundamentais para o processo de aprendizagem e desenvolvimento nesse período.

A UNICEF coloca que esta é uma “crise educacional sem precedentes na história recente da América Latina e do Caribe” apontando ainda que se as escolas permanecerem fechadas por muito tempo pode existir um problema real de atraso no aprendizado, sendo vital que os alunos aprendam em casa, utilizando todos os canais possíveis, rádio, televisão, internet e telefones celulares, sugerindo “um esforço conjunto de governos, setor privado, pais, mães e crianças e adolescentes”.

O que nos salta aos olhos é que os professores não são citados neste esforço conjunto, mas são eles que estão à frente e sendo exigidos para que, da noite para o dia, comecem a criar conteúdos em meios digitais ou para acesso remoto, dando sequência ao aprendizado dos seus alunos. Os professores têm sido cobrados [e ainda criticados] para se reinventar e utilizar as Tecnologias Digitais de Interação e Comunicação de forma completa, segura e que promovam não apenas o aprendizado, mas a interação com a escola como apregoa (Daros, 2020), mantendo assim o vínculo da comunidade escolar. O que não se tem prestado a devida atenção é: Os professores estão preparados para esta realidade? Eles têm conhecimentos e habilidades necessários para a elaboração de materiais digitais? E quais são as habilidades necessárias para tal?

O que vemos hoje são professores angustiados, tentando produzir conteúdos em formatos até então não [ou pouco] explorados, sem a certeza de sua efetividade e se alcançarão todo o seu alunado. Mesmo que estejamos pensando em conteúdos de acesso remoto e temporário, e não na concepção complexa da modalidade de Educação a Distância, vê-se que há uma lacuna na formação e prática desses professores.

Em pesquisa recente, em documentos da Alemanha (KMK.org, 2017), Austrália (Education Council, 2018) e África do Sul (Republic of South Africa, 2018), foi possível identificar 7 macrocompetências para que professores promovam o uso pedagógico das Tecnologias Digitais de Interação e Comunicação (TDIC), sendo elas:

  • Compreender o contexto e a promoção do uso ético, seguro e responsável das TDIC;
  • Pesquisar, utilizar e manipular ferramentas e Conteúdos Digitais;
  • Desenvolver as habilidades dos estudantes em TDIC;
  • Compreender a colaboração das TDIC na comunicação, processos avaliativos e na gestão da sala de aula;
  • Comprometer-se com o aprendizado individual do aluno com TDIC;
  • Garantir o alinhamento das TDIC com o Currículo e implementação dessas tecnologias em sala de aula;
  • Comprometer-se com seu desenvolvimento pessoal e profissional com as TDIC.

Estas competências são cobradas dos professores sem uma formação inicial que as contemple, sem estrutura e, especialmente, sem uma reflexão ampla. Vale ressaltar que estas 7 macrocompetências ainda não são direcionadas para o conteúdo 100% online, como está sendo exigido atualmente, excluindo, por exemplo, os conhecimentos de Design Instrucional  (Filatro, 2008) ou de Desenho Didático Interativo (Santos e Silva, 2009) para a construção de cursos e conteúdos online, que, de maneira geral, preveem o planejamento e uso de um conjunto de métodos, técnicas e recursos em processos de ensino e aprendizagem que sejam dialógicos e favoreçam o protagonismo e a colaboração dos estudantes.

No cenário atual, além das competências listadas, são exigidas outras, muito mais técnicas, o que nos leva a outras perguntas: É possível que um professor seja um especialista em conteúdo e em tecnologia? Que se mantenha informado em relação ao conteúdo da disciplina, às metodologias e propostas pedagógicas, ao mesmo tempo em que acompanha a evolução das ferramentas multimídias? O que é ofertado pela Escola (e seus dirigentes) para tal? Em que período? Qual o tempo do professor que tem, muitas vezes, jornada dupla, para fazer isso?

O que precisamos refletir não é apenas a formação inicial e continuada dos professores da Educação Básica no que tange às inovações tecnológicas, mas sim, qual o real papel do professor neste cenário, o qual compreendemos como de mediador na construção do conhecimento, parceiro e orientador do aluno no processo de ensino e aprendizagem.

Mediar a construção de conhecimento por si só já é uma missão grandiosa e relevante, que envolve pesquisa, organização de conteúdo e conhecimento didático, além do conhecimento de seus alunos e das possibilidades oferecidas por cada escola. Incluir nesta equação o processo de curadoria, produção de conteúdos e gestão das tecnologias é exigir que este docente assuma também a responsabilidade como especialista em ferramentas tecnológicas, mídias, objetos de aprendizagem, e até mesmo, de uso pedagógico de redes sociais.

Esta especialização dos professores para o uso massivo das TDIC exige mudança nos currículos das Licenciaturas e, enquanto isso não ocorre, é necessário um esforço individual de estudo, capacitação e atualização constantes em tecnologia, o que não necessariamente agrega qualidade direta para os assuntos abordados nas disciplinas. Este dilema nos remete a pensar que esse problema pode ser sanado se pensarmos em um novo profissional atuando nas escolas, o Professor Especialista em Tecnologias e Mídias Digitais, que poderia também ser um novo papel na educação contemporânea, de forma permanente, de forma que os professores regentes das disciplinas continuariam especialistas em autoria e conteúdo, enquanto este profissional seria especialista em tecnologias, mídias e estratégias educacionais.

Este novo profissional da Educação teria um caráter multidisciplinar e não pode ser confundido com os Professores/Instrutores de Informática ou de Computação, pois diferente destes, não tem como objetivo o desenvolvimento das habilidades computacionais dos alunos, mas sim, a eficiência da utilização dos meios tecnológicos nos processos pedagógicos das demais disciplinas. Seria o responsável por orientar os professores para a adaptação de seus conteúdos para meios digitais, seja para áudio, vídeo, infográfico, apresentações etc., e seria sua responsabilidade também promover a interação de professores e alunos pelos meios digitais com a proposta de fóruns, chats e atividades interativas, além de divulgar, apresentar e implementar estratégias educacionais tais como o storytelling (contação de histórias), video based learning (aprendizado baseado no uso de vídeos) e gamificação etc.

Profissionais egressos de licenciatura em Computação (que tenha competências desenvolvidas em editoração eletrônica e multimídia), ou da Comunicação Social com habilitação em Editoração, Multimídia e/ou Mídia Digital (ou outras habilitações direcionadas aos meios digitais), podem ser, à primeira vista, profissionais com perfil para exercerem essa função, ainda mais se com especialização na área de Educação, ou com capacitação em Design Instrucional/Desenho Didático Interativo.

Nesta proposta, percebam, este profissional teria como papel oferecer o suporte adequado aos demais professores no que tange ­­­curadoria, produção de conteúdos, escolhas adequadas das mídias, pesquisa de novas ferramentas, propostas inovadoras e, até mesmo, novas metodologias que sejam aliadas as TDIC.

Em um cenário como o atual, de isolamento social e escolas fechadas, este seria o profissional que estaria organizando as atividades dos professores e alunos por meio das ferramentas digitais, redes sociais e sistemas de gestão de aprendizado (Learning Management System – LMS). Sendo ele responsável pela manutenção do vínculo dos alunos com a escola, o que exige deste profissional um conhecimento da comunicação digital, bem como da segurança, ética e responsabilidades digitais, e os professores das disciplinas seriam responsáveis pelos conteúdos e atividades, o que não os isenta de conhecimento de tecnologia e das habilidades básicas de manipulação das ferramentas digitais, pois ainda teriam a responsabilidade de coprodução dos conteúdos.

Hoje, porém, não temos o profissional acima vislumbrado, e no cenário atual, os professores estão sendo desafiados, cobrados e responsabilizados por uma série de competências às quais não lhes foram desenvolvidas e anteriormente apoiadas. E, mais uma vez, o cenário educacional está se resumindo à resiliência, força de vontade e a garra dos docentes na busca de soluções rápidas, inovadoras e que minimizem os danos sociais e pedagógicos, em um mundo em que o futuro nos parece incerto e um pouco caótico.

Algumas iniciativas tentam instrumentalizar este professor ávido de auxílio, a exemplo de:

Existem outras iniciativas similares a estas, porém, de forma geral não solucionam o problema de forma permanente, de formação inicial, e incluir um novo professor, com um novo papel, no cenário educacional parece ser o caminho mais rápido e efetivo.

O fato é que essa Pandemia nos mostrou que a Educação requer mudanças, e que simplesmente atribuí-las à responsabilidade do professor não é o caminho. Esperamos que com o tempo, e com a superação da crise da COVID-19, abra-se um espaço para uma discussão mais aprofundada sobre formação de professores e sobre este novo papel que tem se apresentado como tão necessário à sala de aula nos dias atuais.

Referências

Organização das Nações Unidas Brasil – ONU Brasil. Coronavírus: UNESCO e UNICEF trabalham para acelerar soluções de aprendizagem a distância. 24 mar. 2020.

Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF. Comunicado a Imprensa: Covid-19 – Mais de 95% das crianças estão fora da escola na América Latina e no Caribe, estima o UNICEF. Panamá, 23 mar. 2020. 

KMK.org (Berlim), Bildung in der digitalen Welt: Beschluss der Kultusministerkonferenz vom 08.12.2016. Berlim: Sekretariat der Kultusministerkonferenz, dez 2017. 

Education Council. AITSL: Australian Professional Standards for Teachers. Carlton South: Education Council, 2018. 31 p.

Republic of South Africa. Department of Basic Education. July 2018. Professional Development Framework for Digital Learning, Pretoria.

Daros, Thuinie. Covid-19 impulsiona uso de metodologias ativas no ensino a distância. GRUPO A. Desafios da Educação. 19 mar. 2020.

Filatro, A. Design Instrucional na Prática. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2008, 178p.

Pujol, Leonardo. Cuidados e receios à EAD na crise. GRUPO A. Coronavírus: menos aulas presenciais, mais EAD, 12 mar 2020. Acesso em 2 abril.

Santos, Edméa; Silva, Marco. O Desenho Didático Interativo na Educação Online. Revista Iberoamericana de Educação, n. 49, p. 267-287, 2009.

UNESCO. COVID-19 Impact on Education. COVID-19 Educational Disruption and Response. 2020

Sobre os autores:

Thais Basem Mendes Corrêa Bastos, é graduada em Comunicação Social pela UFPR, MBA em Gestão Estratégica e Marketing pela FGV e Mestre em Ensino pela UNIOESTE. Atua há mais de 10 anos em desenvolvimento de negócios educacionais, com atuação em implantação de Ensino a Distância em diversas Instituições de Ensino Superior. É Integrante do GTIE (Grupo de Pesquisa em Tecnologia, Inovação e Ensino), e sua pesquisa de mestrado foi direcionada para a Identificação de Competências Digitais Docentes com base matrizes internacionais e a adaptação destas competências para um cenário brasileiro, sob a orientação do Prof. Dr. Clodis Boscarioli.

Clodis Boscarioli é graduado em Informática e especialista em Ciência da Computação pela UEP, Mestre em Informática pela UFPR e Doutor em Engenharia Elétrica pela USP. Professor Associado na UNIOESTE, campus de Cascavel, no Curso de Ciência da Computação. Líder do GTIE (Grupo de Pesquisa em Tecnologia, Inovação e Ensino), é docente permanente e orientador no Programa de Pós-graduação em Ciência da Computação (PPGComp) e no Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Educação Matemática (PPGECEM) nível de Mestrado e Doutorado no campus de Cascavel e no Programa de Pós-graduação em Ensino (PPGEn) – nível de Mestrado no campus de Foz do Iguaçu, além de docente colaborador no Programa de Pós-graduação em Tecnologias, Gestão e Sustentabilidade (PPGTGS) também no campus de Foz do Iguaçu.

Como citar esse artigo:

Bastos, T. B. M. C. e Boscarioli, C. 2020. Os Professores do Ensino Básico e as Tecnologias Digitais: Uma reflexão emergente e necessária em tempos de pandemia. ISSN: 2175-9235. Disponível em: http://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/04/22/professores-do-ensino-basico-e-as-tecnologias-digitais/

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