Por que o Dia Internacional da Proteção de Dados é Estratégico para a Sociedade Digital?

Por que o Dia Internacional da Proteção de Dados é Estratégico para a Sociedade Digital?

Belo Horizonte, MG, 28 de janeiro de 2026

Vivemos uma era em que dados pessoais e corporativos se tornaram ativos estratégicos para inovação, competitividade e políticas públicas. Os serviços digitais, as plataformas educacionais, os sistemas de saúde, as cidades inteligentes consideram dados como insumo básico para tomada de decisão, automação e personalização. Nesse contexto, a proteção de dados deixa de ser apenas um requisito legal e passa a ser um pilar de confiança, sustentabilidade e soberania digital.

O Dia Internacional da Proteção de Dados, celebrado em 28 de janeiro (hoje), marca a necessidade de alinhar tecnologia, governança e direitos fundamentais. A data não é simbólica por acaso. Ela remete à Convenção 108 do Conselho da Europa, primeiro tratado internacional sobre proteção de dados, que estabeleceu princípios replicados em legislações ao redor do mundo. Ao celebrarmos essa data, reforçamos o compromisso com privacy by design, segurança por padrão e responsabilidade institucional.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) consolidou um marco regulatório que exige mudanças estruturais em organizações públicas e privadas. Mais do que adequação documental, a LGPD requer processos contínuos de gestão de riscos, inventário de dados, controles técnicos e capacitação de pessoas. A proteção de dados, portanto, precisa ser incorporada ao ciclo de vida de sistemas, produtos e serviços digitais. Observamos avanços relevantes: a criação de comitês de privacidade, a nomeação de encarregados (DPOs), a adoção de políticas de cibersegurança e a integração entre áreas jurídicas, técnicas e de negócio. Entretanto, os desafios persistem. Incidentes de vazamento, ataques de ransomware, engenharia social e uso indevido de dados continuam ocorrendo, revelando lacunas na maturidade cibernética e em governança.

Consolidar uma cultura de proteção de dados implica investir em processos auditáveis, métricas de conformidade, testes de segurança e resposta a incidentes, além de mecanismos de transparência com titulares. A conformidade regulatória deve caminhar junto à efetividade operacional da cibersegurança. A proteção de dados depende, de forma direta, da robustez das estratégias de cibersegurança. Os controles de acesso, a criptografia, a segmentação de redes, o monitoramento contínuo e a detecção de intrusões são medidas essenciais para reduzir superfícies de ataque e conter impactos. Em ambientes complexos, como infraestruturas críticas, IoT, 5G/6G e computação em nuvem, a segurança precisa ser projetada de forma distribuída e resiliente.

Os modelos tradicionais de perímetro já não são suficientes. As abordagens como Zero Trust, a segurança na borda (edge security) e autenticação multifator adaptativa tornam-se indispensáveis. Além disso, a proteção de dados exige atenção a cadeias de suprimento digitais, onde vulnerabilidades em sistemas de terceiros podem comprometer ecossistemas inteiros. Nesse cenário, investir em detecção precoce, resposta automatizada e continuidade de negócios reduz significativamente o tempo de exposição e o custo de incidentes. A proteção de dados, portanto, não é um evento pontual, mas um processo contínuo de avaliação e adaptação frente a ameaças em constante evolução.

Proteção de dados em setores críticos

Em saúde, os dados clínicos, genômicos e de dispositivos vestíveis exigem proteção rigorosa, pois vazamentos geram danos irreversíveis a pacientes. A interoperabilidade entre sistemas deve ser acompanhada de controles criptográficos, autenticação forte e gestão de identidades. A digitalização do prontuário eletrônico e o uso de IA para diagnóstico ampliam a superfície de risco, exigindo segurança integrada ao projeto das plataformas.

Na educação, as plataformas de aprendizagem, os ambientes virtuais e os sistemas acadêmicos coletam dados de estudantes e docentes. A proteção de dados nesse contexto é fundamental para preservar identidade, desempenho e histórico acadêmico, além de prevenir usos indevidos para perfilhamento ou discriminação.

No governo digital, as bases maciças de dados sustentam políticas públicas, serviços ao cidadão e fiscalização. A proteção de dados é condição para confiança institucional, integridade de processos democráticos e continuidade de serviços essenciais. A estratégias nacionais de cibersegurança e centros de resposta a incidentes precisam operar de forma coordenada, com protocolos de compartilhamento seguro de informações e inteligência de ameaças.

Ao celebrarmos o Dia Internacional da Proteção de Dados, reforçamos que cibersegurança, privacidade e desenvolvimento devem avançar juntos, sustentados por ciência, tecnologia e governança responsável. A proteção de dados é, em essência, a proteção de direitos, identidades e relações de confiança que sustentam a vida e a sociedade digital. Em um cenário de ataques sofisticados, cadeias de suprimento complexas e uso intensivo de Inteligência Artificial, somente abordagens integradas e contínuas serão capazes de garantir resiliência. O *28 de janeiro* deve ser mais do que uma data no calendário, deve ser um marco de compromisso permanente com a construção de um ambiente digital seguro, ético e inovador. Se quisermos um futuro em que tecnologia impulsione desenvolvimento social e econômico, precisamos tratar a proteção de dados como prioridade estratégica, responsabilidade coletiva e valor inegociável.

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Este ensaio foi escrito pela Profa. Michele Nogueira, do Departamento de Ciência da Computação da UFMG.

Como citar este artigo:

NOGUEIRA, Michele. Por que o dia internacional da proteção de dados é estratégico para a sociedade digital?. SBC Horizontes, novembro 2025. ISSN 2175-9235.  Acesso em: DD mês. AAAA.

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