Pesquisa na Computação em tempos de Pandemia: muito além do que os olhos podem ver

Pesquisa na Computação em tempos de Pandemia: muito além do que os olhos podem ver

Embora a importância da Computação para a sociedade e para o setor produtivo seja reconhecida por todos, a atuação dos pesquisadores nessa área e os desafios que eles enfrentam podem ir bem além do que os olhos podem ver! Nessa edição da coluna Beyond the Horizon,  Luciana Zaina,  Professora da UFScar do campus de Sorocaba com ampla experiência prática com startups, expande o horizonte dos leitores ilustrando como a pesquisa na Computação contribui e também sofre com o impacto da pandemia. Ela nos inspira contando sobre os bastidores do seu grupo de pesquisa. Ótima oportunidade para aprendermos com a experiência deles. Boa leitura!

Lara Piccolo – editora da coluna Beyond the Horizon


Pesquisa na Computação em tempos de Pandemia: muito além do que os olhos podem ver

Por Luciana Zaina

Em tempos de pandemia do COVID-19, muito se tem falado sobre resultados científicos e uso de dados para tomada de decisões tanto no âmbito da saúde quanto no contexto social. Pesquisas sobre vacinas, mapeamento de genomas, estudo sobre localizações geográficas com probabilidade de disseminação do vírus são alguns exemplos de resultados obtidos através do esforço de cientistas para ajudar a mitigar as consequências da COVID-19 no mundo.

E a Computação, como tem contribuído?

Aprendizado de Máquina e Ciência dos Dados, temas quentes (hot topics) mundo afora podem auxiliar na tomada de decisões para saúde e para sociedade, como esse exemplo do uso de Aprendizado de Máquinas para descobrir tratamentos para o COVID-19.

Mas a pesquisa em Computação e seus benefícios vão muito além desses temas. Alguns outros temas são invisíveis aos olhos das pessoas porque seus benefícios não são vistos na forma concreta de um software ou hardware.

A pesquisa em Computação é constituída por muitas área distintas, como Inteligência Artificial, Engenharia de Software, Redes de Computadores, Informática na Educação, Teoria da Computação, Interação Humano-Computador e muitas outras. Algumas dessas áreas são amplamente multidisciplinares e buscam agregar à Computação lentes diferentes. 

Por exemplo, aquele recurso do seu smartphone que permite que através da fala você diga o que deseja fazer, envolveu estudos sobre reconhecimento de padrões, identificação de voz, busca por termos chaves, etc. E olhando muito além do que os limites dos olhos conseguem ver, esse novo recurso teve pesquisas com pessoas sobre o uso da voz, como seria seu uso em ambientes distintos (casa, rua, shopping, etc) e a aceitação por parte de seres humanos.

 Sim! Estudar seres humanos faz parte da Computação!

Afinal, muitas das inovações que surgem na Computação são feitas para que seres humanos usem; logo nada mais justo do que avaliar seu impacto com pessoas. Umas das atuações da área de Interação Humano Computador (IHC), por exemplo, é estudar como as pessoas se apropriam das tecnologias no contexto em que vivem e trabalham (clique aqui se quiser saber mais sobre IHC).

E como trabalham os pesquisadores de Computação em tempos de Pandemia?

A ideia comum de que os pesquisadores de Computação só precisam de um computador em casa para continuar com o trabalho não é 100% verdade e nem sempre factível. Algumas áreas precisam de computadores mais potentes que nem sempre estão disponíveis em work from home. Além disso, como ficam as pesquisas da Computação que necessitam de interação direta com empresas e seres humanos? Interagir online, como parece ser a solução para tudo agora, não é uma solução para qualquer pesquisador da Computação continuar seu trabalho.

O grupo de pesquisa que atuo, realiza estudos que envolvem interação de seres humanos com softwares dentro do contexto de empresas de desenvolvimento de software. Pesquisamos como diferentes artefatos podem dar suporte ao trabalho diário dos profissionais de engenharia de software (área de Engenharia de Software) para que eles construam produtos de software que tenham um olhar cuidadoso sobre usuário final (área de Interação Humano-Computador). Ou seja, atuamos em duas grandes áreas da Computação que são a Engenharia de Software e a Interação-Humano Computador e precisamos ter contato direto com os profissionais, com usuários, com pessoas. Da mesma forma, muitos outros grupos que fazem pesquisa com seres humanos têm o mesmo problema de não saber como proceder para dar continuidade à investigação, pois o contato online não é suficiente. Precisamos estudar o ambiente onde estas pessoas interagem tanto entre si quanto com os computadores e as variáveis que impactam nessa interação.

E como prosseguir com o trabalho de pesquisa em tempos de isolamento social

 Algumas sugestões oriundas de pura reflexão que tenho feito desde que o isolamento social se iniciou são apresentadas a seguir: 

  1. Ninguém pode se sentir culpado(a) por não poder tocar a pesquisa em campo. Isto está fora do controle!
  2. Considerar meios de pesquisa alternativos como entrevistas virtuais, surveys, entre outras. Elas não substituirão a pesquisa de campo, mas permitem que a pesquisa continue ativa coletando dados que podem surpreender por serem bem interessantes.
  3. É importante ter um plano de pesquisa e de ação para quando as atividades voltarem ao normal.
  4. Não trabalhar sozinho(a). O ideal é ter um time composto por estudantes e pesquisadores que tenham ideias complementares, que planejem tarefas e compartilhem as responsabilidades na execução.
  5. Ter reuniões virtuais curtas e regulares com esse time. Isso ajuda a oxigenar as ideias.
  6. Definir como irão comunicar os resultados da pesquisa. Pense para quem esses resultados seriam úteis, o que vai além dos  veículos científicos com alto fator de impacto. 
  7. E por fim, todo nós precisamos reservar um tempo para fazer algo que lhe dê prazer. Não é porque estamos em casa que precisamos trabalhar o tempo todo.

A pandemia perderá a força e será finalizada em algum tempo. Dentre as lições aprendidas nesse período, podemos destacar a necessidade de sempre termos um plano alternativo sobre os métodos que usamos em nossos estudos de campo para mitigação de riscos. E também em como podemos estar próximos das pessoas mesmo estando distantes.

Referências

Cientistas de Dados usam Machine Learning para Descobrir Tratamentos para o Covid-19. Disponível em: http://datascienceacademy.com.br/blog/cientistas-de-dados-usam-machine-learning-para-descobrir-tratamentos-para-o-covid-19/

CARROLL, J. M. Human Computer Interaction – brief intro. Disponível em: https://www.interaction-design.org/literature/book/the-encyclopedia-of-human-computer-interaction-2nd-ed/human-computer-interaction-brief-intro

Sobre a autora

Luciana A. M. Zaina é Professora Associada do Departamento de Computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba. É docente das disciplinas de Engenharia de Software e Interação Humano-Computador (IHC) em cursos de graduação, pós-graduação e especializações lato sensu. Desde 2013, tem atuado em pesquisas qualitativas sobre como times de software trabalham com a User eXperience (UX) em suas atividades diárias. Seus interesses de pesquisa incluem: engenharia de requisitos, práticas ágeis, UX, startups de software e aspectos humanos da engenharia de software.

Como citar esse artigo:

Zaina, L., 2020. Pesquisa na Computação em tempos de Pandemia: muito além do que os olhos podem ver. SBC Horizontes. ISSN: 2175-9235. Disponível em: http://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/05/23/pesquisa-na-computacao-em-tempos-de-pandemia/

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