O código é neutro?
Ao acessar um aplicativo de uma loja virtual recebemos recomendações de produtos que podem, e provavelmente, irão nos agradar. Estas recomendações são geradas por algoritmos computacionais que levam em consideração inúmeros fatores, sobre os quais não temos conhecimento pleno.
Esta situação não acontece apenas quando queremos comprar um livro. Ao pesquisar por um filme, um vídeo, um material em um repositório ou o melhor trajeto até um destino também recebemos recomendações. Para O’Neil (2021), estes códigos estão guardados em uma caixa opaca, sobre a qual não temos acesso.
Mas, qual é o problema disso?
A área de Estudos de Software (Software Studies) compreende que o software é um produto cultural e com isso é influenciado por diferentes fatores sociais, econômicos e culturais (MANOVICH, 2013; FULLER et al., 2008). Ao mesmo tempo, produz efeitos na sociedade. Ou seja, um aplicativo projetado para recomendar apenas livros de uma determinada editora tem grandes chances de fazer suas vendas aumentarem e tornar a pessoa que o escreveu famosa.
Assim, compreende-se que o software, a tecnologia em si, não é neutra. Uma vez que o software é uma camada invisível que permeia muitos aspectos da vida em sociedade, é possível visualizar o alcance da sua modulação nos nossos gostos, nos restaurantes que visitamos, nas informações que inserimos em nossos artigos etc.
Sob o guarda-chuva dos Estudos de Software situa-se a área de Estudos Críticos de Códigos (Critical Code Studies). Assim como o próprio nome sugere, esta área estuda, analisa e avalia o código fonte das aplicações com um olhar multidisciplinar. Aqui, assim como o software, compreende-se que o código que o produz também é um produto cultural (MARINO, 2020).
O codework surge como uma forma de manifestação de expressividade através do uso do código de programação e é considerado como parte das técnicas propostas nos Estudos Críticos de Código. Em outras palavras, o codework constitui-se como uma forma de escrever poesia tensionando a relação entre a linguagem natural e a linguagem de programação.
Destacam-se neste meio Mez Breeze, artista de inúmeras obras de codeworke net.arte criadora da linguagem mezangelle, uma linguagem não executável com foco na codificação de poesias. Nick Montfort, pesquisador e escritor, um dos fundadores da área de Estudos Críticos de Software, e editor da revista Taper, uma revista virtual que publica obras de net.arte codework. O livro/site ./code –poetry, dos artistas Chris Kerre Daniel Holden, é um exemplo de codeworkexecutável, sendo esta característica não exigida em todas as obras.
No Brasil, já mencionado nesta coluna, há o projeto Poesia Compilada, desenvolvido pela pesquisadora e escritora Soraya Medeiros. Também pode ser citada a obra de Giselle Beiguelman, artista e professora que pesquisa e desenvolve projetos que integram a arte e a tecnologia. Na maioria das obras das pessoas artistas mencionadas, verifica-se um caráter crítico como motor artístico da poesia, sendo esta uma das características inerentes a net.art e ao codework, baseadas em premissas de hacktivismo.
Assim, fica a provocação:
Você já pensou no código que escreve?
Você já havia pensado em usar o seu código para se expressar?
Referências
FULLER, M. (ed.). Software Studies: A Lexicon. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2008.
MANOVICH, L. Software Takes Command. [S. l.]: Bloomsbury Academic, 2013.
MARINO, M. C. Critical Code Studies. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2020.
O’NEIL, C. Algoritmos de destruição em massa. [S. l.]: Editora Rua do Sabão, 2021.
Autoria

Vinicius Hartmann Ferreira
É professor da área de Informática/Programação Web no Instituto Federal do Rio Grande do Sul – Campus Feliz. É também escritor de dois livros, Meu pai robô (infantil) e Até que enfim (poesia), e pesquisador na área de Informática na Educação e Arte e Tecnologia.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/8839352605511604
Site pessoal: https://vhflabs.com.br/