O dia em que ninguém percebeu a mudança
O livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood, narra uma história de ficção distópica sob uma perspectiva feminina. Um golpe, a suspensão da constituição, e o mundo virou de cabeça pra baixo. O que era, deixou de ser, e o novo virou o antigo. As mulheres perderam seus direitos e seu dinheiro. O livro virou série e está disponível no streaming.
Atwood conta a história de June na nova República de Gilead, misturando a realidade vivida com suas lembranças. Nessa mescla entre diferentes tempos, uma reflexão sobre a transição do dinheiro de papel para o banco digital me chamou a atenção. No capítulo vinte e oito, página 208 da minha edição, um pequeno parágrafo explica muita coisa. June pensa: Imagino que tenha sido assim que puderam fazer, da maneira que fizeram, tudo ao mesmo tempo de uma só tacada, sem que ninguém soubesse de antecedência. Se ainda tivesse sido dinheiro vivo, que se pudesse ter em mãos, teria sido mais difícil.
O dinheiro, que estava na nuvem, evaporou. Foi assim que tudo começou.
É preciso prestar atenção aos detalhes. Mas nem sempre a gente tem tempo. Na correria do cotidiano, as coisas vão acontecendo. Sem planejar, todo o nosso dinheiro virou digital e o banco não tem mais agência física. A gente confia no aplicativo.
Também ninguém prestou muita atenção no desenvolvimento da inteligência artificial. Ela ficava escondida nas coisas e não percebemos o quanto ela aprendeu. Até que um dia, novembro de 2022, para ser exata, o que era ficção virou realidade. A OpenIA lançou o ChatGPT e o sistema virou nosso melhor amigo e confidente. Faz tudo por nós. A gente confia na IA.
Os cientistas também confiaram em HAL 9000, a inteligência artificial que gerenciava a nave Discovery no filme 2001: uma odisseia no espaço. Tudo deu certo até que começou a dar errado. Eles não prestaram atenção aos detalhes.
Conforme Sherlock Holmes, os pequenos detalhes são sempre os mais importantes. É preciso olhar com vontade de ver. Vi um estudo desenvolvido por uma equipe do Media Lab, do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, dizendo que usuários de ChatGPT apresentam menor nível de engajamento cerebral comparado com grupos que utilizaram o Google ou realizaram a atividade proposta sem o auxílio de tecnologia.
Fiquei pensando na minha época de escola, quando a internet nem existia e toda a pesquisa acontecia nos livros da biblioteca ou na enciclopédia que habitava o escritório lá de casa. Aquele mundo não existe mais. A vida não anda para trás.
— O que está vindo por aí, então? — pergunta o leitor desavisado.
Se eu fosse a June, diria:
— Follow the money.

Patrícia Scherer Bassani é doutora em Informática na Educação, professora, pesquisadora e escritora.