InPEx 2026: Ciência Global e Computação de Alto Desempenho em Niterói
Por Matheus Marotti, Bernardo Gallo, Alana Gadelha e Lúcia Drummond
O International Pos-Exascale Project (InPEx) aconteceu na cidade de Niterói durante os dias 22 a 25 de abril de 2026. O evento foi coordenado no Brasil pelo professor Philippe Navaux com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do INRIA, France 2030, RNP, SCALAC, SBC, CEA, CNRS, NumPEx, UFF e UFRGS. O InPEx trouxe diversos pesquisadores em computação de alto desempenho de países como Japão, Estados Unidos, França, Espanha, Argentina e outros da Europa e América Latina.
Como o cenário global da tecnologia está em constante transformação, a edição 2026 do InPEx consolidou-se como um marco fundamental para o avanço da computação moderna. O evento ocorre anualmente desde 2023, tendo passado por Reims (França), Sitges (Espanha) em 2024 e Kanagawa (Japão) em 2025. Realizado no hemisfério sul pela primeira vez, na cidade de Niterói, Rio de Janeiro, o evento reuniu a elite mundial da pesquisa em Computação de Alto Desempenho (High Performance Computing- HPC).
Durante os quatro dias, foram abordados diversos assuntos relevantes para o futuro da computação, incluindo as estratégias regionais de convergência entre Inteligência Artificial, Computação Quântica e HPC. Foram apresentados os planos japoneses de IA para o avanço da Ciência e sua estratégia de Computação Quântica. Pesquisadores estadunidenses apresentaram a Missão Genesis, plano para acelerar a ciência por meio da IA, e o National AI Research Resource (NAIRR), iniciativa que busca criar pontes entre recursos acadêmicos e da indústria. Pesquisadores franceses, alemães, finlandeses e espanhóis apresentaram a estratégia da União Europeia de IA e o progresso das “Fábricas de IA” (AI Factories), que visam disponibilizar recursos de HPC para pesquisa e desenvolvimento de sistemas de IA em larga escala. Do lado brasileiro, Carla Osthoff (LNCC) detalhou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).

Pesquisadores internacionais e o Prêmio Turing
A relevância internacional do workshop foi atestada pela presença de grandes figuras da computação. O grande destaque foi o Professor Jack Dongarra, renomado pesquisador de HPC e vencedor do Prêmio Turing (o “Nobel da Computação”), que compartilhou sua visão sobre o futuro do HPC. Além de Dongarra, o evento contou com palestras de outros pesquisadores de peso, como Martin Schulz (TU-Munich) e Erwin Laure (TUM/MPCDF); Jeffrey Vetter (Oak Ridge National Laboratory); Ilkay Altintas (San Diego Supercomputer Center); Rick Stevens, Frank Capello e Anshu Dubey (Argonne National Laboratory); Bernd Mohr (Jülich Supercomputing Centre); Rosa Badia (Barcelona Supercomputing Center); Masaaki Kondo e Mitsuhisa Sato (RIKEN); Gabriel Antoniu e Jean-Yves Berthou (INRIA).
Representando a pesquisa na América Latina, o evento contou com a participação de pesquisadores como Isidoro Gilter (ABACUS, México); Esteban Meneses (CeNAT-CNCA, Costa Rica) e Nicolás Wolovick (Universidad Nacional de Córdoba, Argentina); além de Liliana Barbosa-Santillán (Universidade de Guadalajara, México) e Harold Castro (UNIANDES, Colômbia).
Organização
O sucesso do workshop foi fruto de uma colaboração estreita entre entidades globais. A coordenação internacional foi liderada por Pete Beckman (Northwestern University), Jean-Yves Berthou (INRIA) e Mohamed Wahib (RIKEN). A equipe de organização foi composta por:
- Lado Francês: Representado por Corentin Lefèvre (NumPEx/INRIA).
- Lado Regional (América Latina): Carlos Jaime Barrios Hernandez (SCALAC/UIS).
- Comitê Organizador Local: Leandro Ciuffo (RNP), Philippe Navaux (UFRGS) e Lúcia Drummond (UFF).
Destaques e Contribuições Internacionais
Entre as iniciativas internacionais apresentadas, destacaram-se:
- Japão: Representado por pesquisadores do RIKEN, o país detalhou seus planos de IA para o avanço da ciência; suas estratégias para a Computação Quântica, focando na integração dessas tecnologias para acelerar descobertas em física e biologia. Além de novas estratégias do uso integrado de IA+HPC.
- Estados Unidos: Foi apresentada a Missão Genesis, liderada pelo Department of Energy (DoE) para acelerar a descoberta científica via IA, e o National AI Research Resource (NAIRR), uma iniciativa da NSF que conecta recursos acadêmicos e industriais para democratizar o acesso à infraestrutura de IA.
- União Europeia: Especialistas da França, Alemanha, Finlândia e Espanha detalharam o progresso das “Fábricas de IA” (AI Factories). Essas unidades buscam disponibilizar infraestrutura de HPC de última geração para o treinamento de grandes modelos fundacionais e o desenvolvimento de sistemas de IA em escala industrial.

Grupos de Trabalho e Colaboração Global
Além das estratégias nacionais, o InPEx 2026 promoveu sessões técnicas intensivas divididas em quatro subgrupos principais:
- Experimentação de Grandes Modelos de IA para a Ciência: O destaque foi o debate sobre o “1000 scientists AI Jam”, uma proposta de colaboração para compartilhar experiências entre os EUA, Japão e Europa no treinamento de modelos científicos massivos. Novas iniciativas internacionais buscam expandir essa cooperação para o desenvolvimento de “Co-scientist JAMS”, visando a automação científica em escala global.
- HPC/AI Convergence: As discussões focaram em escalabilidade, limites de memória e arquiteturas heterogêneas, abordando a necessidade de soberania digital no desenvolvimento de stacks de software para supercomputação.
- Computing Continuum: Foram apresentados casos globais como o SKA (radioastronomia de larga escala) , HEP (física de alta energia) , EsiWACE (clima e meteorologia) e Digital Twins de desastres. A sessão visa fundamentar futuros roadmaps e estratégias de financiamento internacional.
- GenAI e Engenharia de Software: O grupo discutiu como a IA Generativa pode acelerar ciclos de desenvolvimento de software científico, além de focar na auditoria e validação de códigos gerados por IA para garantir a confiabilidade em sistemas críticos.
Liderança Brasileira: O Legado de Philippe Navaux
À frente da coordenação brasileira deste encontro internacional está o Professor Philippe Navaux, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Reconhecido mundialmente por suas contribuições, Navaux tem sido o arquiteto de pontes entre o Brasil e redes globais de pesquisa, garantindo que a ciência brasileira participe das inovações em infraestrutura computacional.

Outras Contribuições Brasileiras
O workshop serviu como vitrine para projetos nacionais de alto impacto:
- Arthur Lorenzon e Philippe Navaux (UFRGS): apresentaram pesquisas sobre a convergência HPC/IA e arquiteturas otimizadas para aprendizado de máquina no grupo de discussão correspondente;
- Alba Melo (UnB): apresentou a proposta brasileira de um ecossistema federado no grupo de discussão de computação contínua;
- Lúcia Drummond (UFF): compartilhou a experiência brasileira no uso de sistemas on-premises e nuvens comerciais no projeto de cooperação entre UFF e Petrobras, no grupo de computação contínua;
- Alfredo Goldman (USP): abordou a tríade HPC, IA e Engenharia de Software para o desenvolvimento de sistemas robustos no grupo dedicado ao tema
InPEx 2026: Balanço e Futuro
Ao reunir esses nomes em solo brasileiro, o InPEx 2026 reafirma que, através da colaboração internacional e do investimento em talentos locais, a ciência brasileira segue resiliente e inovadora, pronta para os desafios da próxima década.
O workshop encerra-se com a expectativa de que as discussões iniciadas e as parcerias fortalecidas em Niterói gerem frutos duradouros para a comunidade científica. A integração entre a elite da pesquisa mundial e os centros de excelência brasileiros estabelece uma base sólida para que o país continue a contribuir ativamente para a evolução da computação de alto desempenho e da inteligência artificial nos próximos anos.
Autores

Mestrando em Ciência da Computação na Universidade Federal Fluminense (UFF). Seus interesses de pesquisa situam-se na interseção entre Computação de Alto Desempenho (HPC), Computação em Nuvem e Inteligência Artificial. Participou do InPex como Staff UFF.

Mestrando em Ciência da Computação na Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalha com Escalonamento, Otimização Multi-objetivo, Computação na Nuvem e Aprendizado de Máquina. Participou do InPex como Staff UFF.

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Dinâmica dos Oceanos e da Terra (PPGDOT) da Universidade Federal Fluminense (UFF). Suas experiências e interesses estão na área de Geociências, com ênfase em Meteorologia, modelagem numérica da atmosfera e Computação de Alto Desempenho (HPC). Participou do InPex como Staff UFF.

Professora Titular do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense. Seus principais interesses são Processamento Paralelo e Distribuído, Computação de Alto Desempenho (HPC), Computação em Nuvem.
Como citar este artigo:
MAROTTI, Matheus; GALLO, Bernardo; GADELHA, Alana e DRUMMOND, Lúcia. InPEx 2026: Ciência Global e Computação de Alto Desempenho em Niterói. SBC Horizontes, maio 2026. ISSN 2175-9235. Disponível em: https://horizontes.sbc.org.br/wp-admin/post.php?post=11967. Acesso em: DD mês. AAAA.