A materialidade do digital

A materialidade do digital

O digital tem um quê de mistério. Um tanto intangível. Não se deixa tocar. Vive na nuvem.

O conjunto de zeros e uns tece a matrix do cotidiano de forma transparente. Como névoa fina, se dissolve na camada visível das tarefas que movem o mundo.

Os dados digitais são descorporificados. Ou seriam descorporizados? Palavra estranha para dizer que alguma coisa não tem mais corpo, saiu do âmbito do físico, é imaterial. Mais estranho ainda é pensar que algo incorpóreo precisa de matéria para se constituir.

O digital depende de uma base tecnológica. Dispositivos, cabos, satélites. É necessário um conjunto imenso da tabela periódica para o processamento da nossa inteligência. E muita energia, mais do que somos capazes de produzir.

O relatório Energy and AI, divulgado pela Agência Internacional de Energia em abril de 2025, mostra que os data centers foram responsáveis por utilizarem aproximadamente 1,5% da eletricidade mundial no ano anterior. Os Estados Unidos, a Europa e a China consumiram juntos cerca de 85% da demanda global.

Minimizar o consumo de energia implica no desenvolvimento de hardware e software mais eficientes. As big techs estão investindo nisso, mas leva tempo. Enquanto isso, começam a aparecer outras empresas para tentar salvar o mundo.

A Redwood Materials é uma empresa americana que trabalha com reciclagem de baterias de íons de lítio. Em 2025, a empresa lançou uma nova linha de negócios, a Redwood Energy. Eles descobriram que as baterias de carros elétricos, quando chegam ao fim da vida útil, ainda podem reter mais de 50% da capacidade. Vale a pena usar mais um pouco antes da reciclagem. E assim fizeram. A empresa desenvolveu uma plataforma para reaproveitar essas baterias. A ideia é fornecer energia de baixo custo, rápida e escalável, com baterias que já possuímos, integrando recuperação, reutilização e reciclagem. Já tem uma microrrede desse tipo alimentando um data center. Case de sucesso.

Mas nem só de energia vive a IA. Ela esquenta demais, precisa de água para conter o calor.

O calor faz a água evaporar. Do líquido, para o gasoso.

Um tanto intangível. Não se deixa tocar.

Vira nuvem.

Arte: Niki (@jururuart)
Revisão: Tiago Bergenthal (@tiago_bergenthal)
Texto produzido durante o módulo Mosaico Santa Sede (@oficinasantasede & @rubempenz).

Como citar esse artigo:

BASSANI, Patrícia Scherer. A materialidade do digital SBC Horizontes, 04 mai. 2026. ISSN 2175-9235. Disponível em: < https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2026/05/a-materialidade-do-digital/gt;. Acesso em: DD mês. AAAA

Patrícia Scherer Bassani é doutora em Informática na Educação, professora, pesquisadora e escritora. Autora do livro Transformação Digital. Fundadora da Basic.femtech.

Currículo lattes e site pessoal

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