Algoritmo do afeto: em busca do olhar de Nise da Silveira na Computação

Algoritmo do afeto: em busca do olhar de Nise da Silveira na Computação

 

Foto de destaque – Nise da Silveira | Fonte: Museu do Inconsciente

O uso frequente de redes sociais, aplicativos e seus descendentes tem gerado debate na sociedade. No contexto do Brasil, temos o lançamento e entrada em vigor do ECA Digital, que visa regulamentar o uso dessas ferramentas por crianças e adolescentes, estabelecendo, dentre outros pontos: limites  sobre o consumo desenfreado de conteúdo e protegendo-os de medidas unilaterais de plataformas digitais.

Esse ponto se conecta perfeitamente com a preocupação da saúde mental nas redes. Nesse sentido, quando não se consegue impor limites, o uso automático gera severas consequências, como ansiedade, depressão e FOMO (Fear of Missing Out) ou em português: Medo de Perder Algo. Esses adoecimentos se mostram distintos e mais intensos em diferentes faixas etárias. Contudo, nos idosos tem sido relatado o surgimento de monofobia e solidão, conforme o estudo de Santos (2023) descreve. 

Ciente desse contexto e considerando minha experiência como parte de uma família atípica, durante a pandemia da COVID-19 eu quis começar a investigar como seria o uso controlado de reels (vídeos curtos) do Tik Tok e Instagram para meu pai, uma pessoa idosa de 63 anos. Ele possui um histórico de internações, diagnósticos variados e consultas a psiquiatras. Seus laudos apontam desde momentos de esquizofrenia ao transtorno bipolar. 

Isso começou de forma despretensiosa, pois eu observava que sempre que eu ficava mexendo no celular perto dele, ele parava tudo que estava fazendo, inclusive de conversar sozinho (uma das características de quadros esquizofrênicos), e ficava concentrado vendo o que eu estava interagindo. Primeiro, apresentei a ele vídeos famíliares e a interface do Whatsapp, ensinei a ele e a minha mãe a abrirem o app e a fazerem videochamadas para mim,  sempre que precisassem. 

Minha mãe relatava que meu pai pedia para ouvir várias vezes ao longo do dia algum vídeo ou áudio que eu gravava. Também ocorria o mesmo com familiares e ele sempre pedia para interagir e gravar áudios. Depois, resolvi instalar o Instagram para eles acompanharem minhas palestras e produções acadêmicas nessa rede social. Foi bem mais difícil, pois a UX dessa rede possui inúmeras funcionalidades, mas eles conseguiram aprender a usar o básico. 

Em seguida, orientei minha mãe a acessar vídeos para que meu pai pudesse assisti-los e confesso que ajudei a treinar o algoritmo com vídeos de Roberta Miranda e Roberto Carlos, os cantores preferidos dele. Ah! Também pesquisei conteúdos sobre a vida no sertão, nas zonas rurais pelo Brasil. Aos poucos o algoritmo foi entregando mais conteúdos relacionados a essas temáticas e fomos percebendo que meu pai reduziu substancialmente o uso de cigarros (ele também é tabagista),  chegava a relaxar e adormecer após 40 minutos de consumo de conteúdo.

Para quem lida com pessoas com as condições mentais como as do meu pai,  isso foi um excelente aliado para potencializar o efeito do medicamento e, ainda mais, termos ele mais calmo e tranquilo ao longo do dia. Ressalto que ao retirarmos a tela, ele não demonstra descontentamento e até mesmo pede para sair do aplicativo, pois gosta de consumir outro tipo de conteúdo: programas de rádio nas emissoras locais da região do Seridó Potiguar. Ele é muito bem informado sobre tudo que acontece.

O ciclo tende a se repetir ao longo do dia, mas sempre mantemos o monitoramento constante para que não o adoeça, consoante é relatado no trabalho de Santos (2023), e não gere quadros de FOMO. Ele também caminha pela cidade e tem uma rotina de pessoa de cidade do interior, apesar dos desafios relacionados à deficiência.

Em nenhum momento suspendemos medicações, consultas ao psiquiatra e monitoramento para verificar se de fato ele realmente estava tomando a medicação. Contudo, tudo isso me levou a pensar que os algoritmos de recomendação podem possuir e construir uma cultura de afeto, ou “algoritmo do afeto”, como tenho discutido em minha família.

Fonte: Ariell Guerra, 2021. Gente de Teatro | Homenagem à Casa da Ribeira. Reprodução: @ariellguerra  no Instagram.
Fonte: Ariell Guerra, 2021. Gente de Teatro | Homenagem à Casa da Ribeira. Reprodução: @ariellguerra no Instagram.

Seria fundamental que tivéssemos estudos que investigassem e realizassem pesquisas implementando o que tenho feito com meu pai, não só com redes sociais e esses tipos de algoritmos, mas também com outras ferramentas tecnológicas. 

Pesquisar sobre Computação na Educação me acendeu vários alertas sobre o seu uso crítico em sala de aula, mas de maneira pessoal também tem me permitido observar a sua abordagem terapêutica em um sujeito como meu pai. Ele não está só ocupando a mente e diminuindo o consumo de cigarro ou a intensidade e quantidade de crises por dia, mas também tendo acesso a cultura e conteúdos interessantes, os quais são produzidos para a faixa etária dele. 

Muitos esquecem que a cultura e a arte, por vezes, pode ser colocada de lado para pessoas com adoecimento mental, mas Nise da Silveira já nos demonstrou o contrário. Talvez, se ela estivesse viva, um dos seus próximos passos de experiências clínicas seria permitir a utilização dessas ferramentas para a produção de obras, quadros, elaboração de textos e afins.

Este artigo objetiva divulgar como lido com a tecnologia em casa e me conectar com você, profissional da Saúde, que busca trazer, além do remédio, um cotidiano mais afetuoso, tão necessário em casos de esquizofrenia, transtornos do humor e em quadros ansiogênicos em pacientes. Além disso, quero mostrar para meus pares da Computação outras formas de se olhar para o que produzimos e, com isso, trazer os algoritmos para a prática, humanizando algo tão complexo e codificado.

Nota: O texto escrito em primeira pessoa faz referência ao pai da autora – Soraya Medeiros.

Referências:

SANTOS, Renata Maria Silva. As associações entre tempo de tela e saúde mental no ciclo vital. 2023. Tese (Doutorado em Medicina Molecular) – Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2023. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/items/2edd333d-cddd-433f-a218-b3452edf3ae8. Acesso em: 12 mar. 2026.

Autoras:

Soraya Roberta dos Santos Medeiros – Doutora em Ciência da Computação (CIN – UFPE), Mestra em Inovação em Tecnologias Educacionais (IMD-UFRN), Bacharela em Sistemas da Informação (UFRN). Autora do @projetopoesiacompilada, Analista de Projetos Educacionais e editora da Coluna Cultura e Crítica da SBC -Horizontes.

 

 

 

 

Célia Maria de Medeiros – Graduada em Letras-Língua Portuguesa/Literatura/Língua Inglesa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1997). Mestrado em Linguística Aplicada pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem – UFRN (2003) e Doutorado em Linguística Teórica e Descritiva pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem – UFRN (2016). Professora Associada da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Departamento de Letras – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes – CCHLA, com atuação na área de Língua Portuguesa/Leitura e Produção de Textos.

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