Meninas Digitais UTFPR-CP: incentivando meninas a conquistarem seu espaço na área de computação e STEM
por
Daniela Dos Santos Alves, Maria Gabriella Victor Gomes da Silva,
Brenda Beatriz Cristaldo, Rosangela de Fátima Pereira Marquesone
Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
Campus Cornélio Procópio – Cornélio Procópio – PR – Brasil
{brendacristaldo, danielaalves}@alunos.utfpr.edu.br
mariagabriellla20@gmail.com, romarquesone@utfpr.edu.br
Este artigo contém um relato das ações promovidas pelo projeto de extensão Meninas Digitais UTFPR-CP, sendo esse um projeto parceiro do Programa Meninas Digitais, da SBC. O projeto, criado dentro da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Cornélio Procópio, tem como objetivo aumentar a participação de meninas e mulheres em computação e STEM, incentivando e auxiliando meninas do ensino fundamental e médio de escolas públicas das cidades de Cornélio Procópio e região, no interior do Paraná, a conquistarem seu espaço nessas áreas. Para isso, o projeto promove ações como oficinas de programação, mentorias e rodas de conversa, incluindo nessas ações a resolução de desafios dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Introdução
Dados apresentados pela UNESCO em 2022 revelam que as mulheres representam somente 35% das matrículas em STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática) no mundo [UNESCO 2022]. No Brasil, apenas 31% das ocupações nessas áreas são de mulheres. O estudo identifica uma combinação de fatores no contexto individual, familiar, social e escolar que influenciam a participação e o desempenho de meninas e mulheres em STEM, gerando sua sub-representação tanto no meio acadêmico quanto no mundo profissional. Um outro estudo realizado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) identificou que um dos fatores que inibem a participação de mulheres em computação e STEM é a presença de um ambiente sexista, o que abala a confiança delas em suas competências. Além disso, o estudo revelou que muitas mulheres desistem dessas áreas por acreditarem que os cursos não estão direcionados a causar impacto social, um fator frequentemente citado como importante para elas [Silbey 2016].
Embora seja identificada tal percepção, as áreas de computação e STEM são consideradas primordiais para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Soluções por meio de inteligência artificial, visão computacional e ciência de dados estão sendo aplicadas para enfrentar desafios como a mudança climática, a proteção do ecossistema e erradicação da fome. Nesse contexto, a educação em computação e STEM é vista como um meio significativo para formar estudantes com habilidades necessárias para transformar a sociedade em uma direção mais sustentável. Em relação aos ODS, pode-se destacar o conjunto de metas para promover a igualdade de gênero (ODS 5), visando eliminar as formas de discriminação contra mulheres e meninas, considerando suas interseções, como raça, etnia, idade e religião. Também busca garantir a participação efetiva das mulheres e igualdade de oportunidades de liderança em todos os níveis de tomada de decisão. Dessa forma, ações voltadas à redução da desigualdade de gênero na educação em computação e STEM contribuem para o alcance dessas metas.
Diante do contexto apresentado, o projeto de extensão Meninas Digitais UTFPR-CP foi criado com o objetivo de apoiar e estimular a participação de meninas em computação e STEM. O projeto incentiva e auxilia estudantes do ensino fundamental e médio de escolas públicas das cidades de Cornélio Procópio e região, no interior do Paraná. A estratégia do projeto inclui o ensino de temas em computação e STEM voltados à resolução de desafios dos ODS da ONU, por meio de oficinas, palestras, minicursos, rodas de conversa e participação em uma competição global de inovação, chamada Technovation Girls [TECHNOVATION 2024], focada em capacitar e estimular o aprendizado de meninas e mulheres, demonstrando o impacto positivo que podem causar na sociedade. Assim, o projeto busca contribuir para a redução da desigualdade de gênero tanto no ambiente universitário como no profissional, tornando-o mais igualitário, diverso e inclusivo, além de ampliar as oportunidades para meninas e mulheres, ajudando-as a alcançar independência por meio de uma educação de qualidade.
Para fornecer maiores detalhes sobre as ações do projeto, o restante do artigo está estruturado da seguinte forma: na Seção 2 são apresentadas informações referentes ao histórico do projeto, desde a sua criação até o momento atual. Na Seção 3 são descritos os indicadores coletados e os resultados alcançados. Por fim, a Seção 4 contém as considerações finais.
Histórico do projeto
Meninas Digitais UTFPR-CP é um projeto de extensão iniciado em março de 2023 no campus Cornélio Procópio da UTFPR. Tendo sido criado inicialmente por 6 alunas de graduação de engenharia de software e de análise de sistemas, atualmente ele é composto por uma professora coordenadora e 19 alunas voluntárias de diferentes cursos de computação e STEM ofertados no campus. Logo após seu início, o projeto obteve a chancela do Programa Meninas Digitais, promovido pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC), possibilitando fazer parte dessa rede nacional de projetos parceiros que atua de forma coletiva para um propósito similar.
Inicialmente, as ações das voluntárias foram voltadas ao desenvolvimento da identidade visual do projeto, criação de redes sociais e especificação de setores e planejamento estratégico. No momento, o projeto contém os setores de marketing, recursos humanos, instrutoras e conteúdo. Também está estruturado de forma a ter duas coordenadoras voluntárias e também representantes de cada setor, responsáveis por acompanhar as atividades a serem realizadas pelas demais integrantes. Embora seja ainda recente, até o momento o projeto já promoveu oficinas de programação, mentoria para participação ao Technovation Girls, rodas de conversa entre estudantes da graduação, participação no encontro regional do Programa Meninas Digitais e parcerias com outros projetos do campus. A seguir são apresentados maiores detalhes de cada uma dessas ações.
Oficina – Meninas no Lab
A primeira oficina ofertada pelo projeto foi o ‘Meninas no Lab’, realizada no 2° semestre de 2023. Seu objetivo foi trazer estudantes meninas de ensino fundamental e médio de escolas públicas para os laboratórios de informática dentro do campus universitário, apresentando a elas conceitos básicos de design e programação, por meio da plataforma de desenvolvimento de aplicativos Thunkable. Nesta primeira edição, dez meninas participaram da oficina, realizada durante a manhã de dois sábados, ministrada pelas integrantes do projeto.
No decorrer dos dois sábados, foi apresentado às participantes o Projeto Meninas Digitais UTFPR-CP, bem como explorado o Thunkable e suas funcionalidades. Ao final de cada aula, foi realizado por todas as meninas um protótipo de aplicativo móvel desenvolvido na plataforma. No primeiro sábado foi desenvolvido um aplicativo focado em apresentar a maneira correta de descartar materiais recicláveis e no segundo sábado foi feito um aplicativo de calculadora.
Mentoria – Technovation Girls
O projeto Meninas Digitais UTFPR-CP tem como planejamento a participação anual na competição global Technovation Girls, que tem como objetivo fazer com que times de jovens garotas ao redor do mundo aprendam a aplicar as habilidades necessárias para resolver problemas do mundo real por meio da tecnologia. Para a participação em um primeiro ano no Technovation Girls, seguimos os passos de divulgação do ‘Meninas no Lab’ para estudantes de escolas públicas de Cornélio Procópio e Nova América da Colina. Para isso, foi primordial o apoio das professoras de ensino básico, que incentivaram a participação das alunas. Dessa forma, a primeira mentoria do projeto ao Technovation Girls contou com 20 alunas de escolas públicas, sendo 15 de Nova América da Colina e 5 de Cornélio Procópio, formando 5 equipes para participar da competição.
A Figura 1 apresenta registros dos encontros realizados no decorrer da mentoria. Nesse período, tivemos a participação de 8 integrantes do projeto, que atuaram como mentoras para os times formados. Ao final de 8 encontros aos sábados, nos quais foram ofertadas mentorias e oficinas sobre temas como identificação de problemas, prototipação, lógica de programação, plano de negócios e criação de pitch; cada equipe propôs e desenvolveu um aplicativo para solucionar um problema alinhado com um ou mais ODS da ONU.

A seguir é apresentado um resumo de cada proposta:
1. Amazing Girls: criaram um aplicativo que auxilia os alunos que sofrem bullying nas escolas e na sociedade.
2. Fantastic Girls: desenvolveram um aplicativo para apoiar mulheres que sofrem com a violência doméstica.
3. PsicGirls: criaram um aplicativo com atividades divertidas e educativas para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
4. Meninas Digitais VB: criaram um aplicativo que ajuda pessoas a identificarem se são consumistas e direciona como melhorar esse hábito.
5. Cyberstars: desenvolveram um aplicativo que ajuda idosos a utilizarem um smartphone com mais facilidade e segurança.
Divulgação do projeto – Feira do trabalhador
No dia 01 de maio, a prefeitura da cidade de Cornélio Procópio promoveu uma feira do trabalhador para a população da cidade e região. O projeto Meninas Digitais UTFPR-CP participou, juntamente com demais projetos do campus, divulgando as ações de extensão para a comunidade. Foram divulgadas informações sobre o projeto e foi criado um quiz sobre mulheres na ciência, o que gerou um grande interesse entre os que estavam no evento. Também foi elaborado um questionário para identificar quais oficinas a população gostaria de receber. Foram obtidas 11 respostas, das quais oficinas de circuitos foi a que gerou mais interesse, com 81.8% dos votos; oficinas de lógica de programação, metodologias ágeis e marketing digital tiveram 63.6%; e informática básica, 54.5%. Com esses dados, conseguimos entender melhor o interesse do nosso público.
Encontro Regional Meninas Digitais
Entre os dias 11 e 12 de abril, com o apoio do Departamento de Computação da UTFPR-CP, 13 integrantes do projeto foram até Balneário Camboriú para participar do evento científico Computer on the Beach. No dia 11, foi possível participar de um workshop sobre ciência de dados; já no dia 12, ocorreu o encontro regional do sul dos projetos parceiros do Programa Meninas Digitais. Esse dia foi enriquecedor, possibilitando a troca de experiências com os outros projetos. Na Figura 2 estão alguns registros do evento.

Roda de conversa
No planejamento do projeto, identificamos a necessidade de criar ações que despertem o interesse de novas estudantes, como também apoiar as que já ingressaram. Segundo dados da UTFPR-CP, de um total de 2.702 alunos regulares do Campus em 2022, apenas 493 eram mulheres, representando menos de 20% do total de estudantes. Tais números indicam a necessidade de maior igualdade de gêenero nos cursos ofertados. Portanto, iniciativas como rodas de conversa e a criação de um ambiente acolhedor são necessárias para as estudantes se sentirem mais confortáveis em sua jornada acadêmica. Dessa forma, pensando em ações voltadas para as alunas da graduação, o projeto realizou, em março, uma roda de conversa, com a proposta de debater, de maneira informal, a vivência das estudantes na universidade e criar uma rede de apoio. Elas trocaram experiências, nas quais identificaram que passaram por desafios similares. Em junho de 2024, o projeto realizou uma nova roda de conversa, em parceria com o diretório acadêmico do campus (DAELT). Nesse dia, foi possível discutir como cada uma se sentia no ambiente acadêmico e profissional e também as dificuldades ao ingressar nessa área, enfrentando visões machistas da família e da sociedade.
Todas as ações apresentadas foram divulgadas no perfil do projeto da rede social Instagram. A equipe de marketing também divulga periodicamente publicações referentes às indicações de conteúdo (e.g., livros, filmes, podcasts) e informações sobre personalidades mulheres na área de computação e STEM.
Resultados alcançados
Ao analisar as ações realizadas, identificamos que o projeto segue aderente às metas definidas no planejamento estratégico. Dentre os resultados alcançados, considera-se que o mais significativo foi referente às alunas que receberam a mentoria para a competição Technovation Girls. Ao longo das 8 semanas, foi possível identificar a evolução e o interesse dessas pelos temas abordados, bem como o fato de terem se sentido acolhidas em um ambiente acadêmico, com recursos públicos e gratuitos. Além da continuidade das estudantes até o final da competição, o que demonstra o interesse dessas, identificou-se que algumas alunas do projeto entraram no cursinho pré-vestibular oferecido na universidade, sendo estimuladas a seguirem na área de computação e STEM.
Além disso, embora seja desafiador levantar tais resultados, considera-se que o projeto esteja contribuindo para os seguintes resultados:
• Ambientação de estudantes de ensino fundamental e médio de escolas públicas em ambiente universitário;
• Maior percepção dos membros da UTFPR sobre a importância das mulheres nas áreas de computação e STEM;
• Estímulo da participação das estudantes em papéis de liderança da UTFPR-CP;
• Aumento de competências técnicas e socioemocionais (e.g., comunicação, liderança, proatividade, trabalho em equipe) das integrantes do projeto;
• Aumento no debate sobre igualdade de gênero na UTFPR-CP.
Considerações finais
Nesse artigo foram apresentadas informações referentes ao projeto de extensão Meninas Digitais UTFPR-CP, sendo esse um projeto parceiro do Programa Meninas Digitais, promovido pela SBC. Inicialmente, foi apresentado o contexto de desigualdade de gênero ainda identificado nas áreas de computação e STEM, demonstrando a necessidade de ações que buscam alcançar maior igualdade nessa área. Com um maior número de meninas e mulheres ingressando nos cursos de computação e STEM, todos são beneficiados com um ambiente inclusivo e diverso, promovendo maior interação entre pessoas com diferentes habilidades e competências, reunidas para resolver os problemas da sociedade. Também pode proporcionar às mulheres da região maiores oportunidades de trabalho, dada a alta taxa de empregabilidade nas áreas de computação e STEM, tanto em empresas da região quanto em nível global. Assim, acreditamos que a existência do projeto pode contribuir para esse propósito, incentivando cada vez mais as meninas e mulheres a conquistarem seu espaço nessas áreas.
Agradecimentos
Cada uma dessas ações não teriam sido possíveis sem a dedicação das integrantes voluntárias do projeto. Por isso, expressamos aqui nosso sincero agradecimento a cada uma delas: Ana L. M. Bertolazzi, Ana L. Siqueira, Brenda B. Cristaldo, Brena S. Freitas, Bruna N. M. L. Garcia, Carla C. Santos, Daniela S. Alves, Eliene A. F. Soares, Gabriela R. Passotto, Jéssica L. Freitas, Julia L. N. Assis, Lara G. Santos, Letícia F. M. Santos, Letícia M. Santos, Maria F. A. Aguiar, Maria G. V. G. Silva, Melissa M. Freitas, Milena S. M. Teixeira, Rosangela F. P. Marquesone (coordenadora), Thais S. Moreira. Também agradecemos ao Projeto GRACE, do ICMC-USP, que nos inspirou a participar do Technovation Girls e ao Programa Meninas Digitais da SBC, por incentivar e promover as ações de cada projeto existente nessa parceria.
Referências
Silbey, S. S. (2016). Why do so many women who study engineering leave the field. Harvard Business Review, 23:1–8.
TECHNOVATION (2024). Juntas vamos mudar o mundo. https://www.technovationbrasil.org/.
UNESCO (2022). #educastem2030. https://www.unesco.org/pt/articles/educastem2030.
Como citar este artigo:
ALVES, D. dos Santos, et al. Meninas Digitais UTFPR-CP: incentivando meninas a conquistarem seu espaço na área de computação e STEM. SBC Horizontes, set. 2026. ISSN 2175-9235. Disponível em: <https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2026/09/meninas-digitais-utfpr-cp-incentivando-meninas-a-conquistarem-seu-espaco-na-area-de-computacao-e-stem/>. Acesso em: DD mês. AAAA.
Nota de rodapé da editora:
Texto enviado por meio da chamada para projetos parceiros do Programa Meninas Digitais.