Mantras da SBC

Há alguns meses as editoras da SBC Horizontes, professoras Karina Mochetti e Soraia Musse, me convidaram para escrever uma coluna para esta importante revista da SBC. Aceitei o convite, mas só agora estou finalmente conseguindo produzir o primeiro texto. O motivo da demora? Excesso de atividades típico da profissão. Espero, de agora em diante, contribuir com a SBC Horizontes mais frequentemente. Não que o volume de atividades venha a diminuir, mas escrever periodicamente para a Horizontes é uma forma de o presidente da SBC prestar contas de suas ações aos associados, e isso deve ser prioritário!

Procurarei contribuir com textos informais em linguagem simples. Textos mais formais são próprios da Computação Brasil, outra publicação da SBC. Aqui, na SBC Horizontes, espero poder relatar as atividades da Diretoria, Conselho e Presidência de modo leve, mas informativo. Espero ter sucesso, mesmo diante de assunto mais áridos.

Tendo a classificar as atividades da SBC em dois grupos. O primeiro compreende aquelas atividades voltadas à comunidade de Computação em si, como realização de eventos, debates nas Comissões Especiais e trabalho junto com às Secretarias Regionais. O segundo grupo compreende as atividades que extrapolam a comunidade de Computação e representam contribuições da SBC à sociedade brasileira. E neste primeiro texto, quero abordar duas questões, deste segundo grupo, que gosto de chamar de “mantras da SBC”: o ensino de Computação e o livre exercício da profissão. “Mantras da SBC” porque são, na minha opinião, os assuntos mais importantes da SBC e procuro abordá-los em toda oportunidade que tenho.

É notória a necessidade de mais profissionais de Computação no mercado. Sem profissionais que atendam às demandas, o Brasil perde oportunidades de gerar riqueza, de se tornar uma nação mais avançada e, em última instância, de oferecer melhor qualidade de vida aos cidadãos. A oferta de mais profissionais passa, claro, por uma formação de qualidade mais volumosa de quadros, mas passa também por garantir que quem já atua na área, independentemente de formação, possa exercer a profissão de forma livre!

A Computação tem sofrido tentativas sistemáticas de captura de seus profissionais há décadas. Com a desculpa de proteger a profissão, as propostas de regulamentação da mesma visam encarcerar os profissionais em conselhos de classe que representam um claro retrocesso. Nenhum país desenvolvido limita o exercício da profissão, NENHUM. Não deveria ser o Brasil aquele a “inovar” na área. A SBC defende a regulamentação da profissão como mecanismo para garantir o livre exercício da mesma. Mas regulamentar a profissão nestas condições envolve articulação política intensa, esclarecimentos constantes dos atores no governo e convencimento dos tomadores de decisão. E tudo isso envolve um gasto de energia tremendo e, na maior parte dos casos, transparente, imperceptível. Entendo ser responsabilidade da SBC lutar com todas as suas forças para evitar o cerceamento do livre exercício da profissão. Temos constantemente buscado apoio na sociedade civil, conversado com deputados e senadores, e repetido este mantra de que cercear a profissão representa um retrocesso para o Brasil. Como mencionei, são ações imperceptíveis ou de pouca notoriedade, mas que são essenciais.

Ao pensar no futuro do Brasil, outra questão importante é o ensino de Computação. Em países desenvolvidos, Computação é algo presente já no ensino básico, enquanto aqui estudantes da rede pública raramente têm acesso à área. Os efeitos colaterais disso são diversos, mas gostaria de destacar três. Inicialmente, a percepção da profissão não é esclarecida em tempo, levando muitos estudantes a escolher cursos superiores em Computação com pouco conhecimento de causa. Muitos, ao perceberam que Computação não se trata de programar o próximo Candy Crush e se tornar milionários rapidamente, desistem do curso aumentando a evasão. Um segundo aspecto é que, mesmo aqueles estudantes que não escolhem cursos superiores na área, não estão instrumentados com Pensamento Computacional, como acontece com mais frequência com estudantes de escolas privadas. Logo, a ausência de Computação no ensino público básico, de fato, aumentará as desigualdades sociais. Por fim, sem Computação no ensino básico os estudantes brasileiros, em comparação com estudantes de outras nações, serão menos competentes proporcionalmente; logo, o Brasil se tornará ainda mais atrasado em relação a outros países. A SBC tem defendido a inclusão de Computação no ensino básico na chamada Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que está atualmente em discussão no Conselho Nacional de Educação (CNE). Temos tido sinais bastante positivos em relação a este pleito. Ao mesmo tempo, estamos alertas para dialogar com tomadores de decisão no governo, que em última instância permitirão (ou não) que Computação faça parte do ensino básico também no Brasil.

As ações da SBC em relação a estes dois temas – exercício livre da profissão e ensino de Computação – são intensas, frequentes, articuladas e, esperamos, resultarão em uma contribuição extremamente relevante para o país, caso tenhamos sucesso. Encerro este primeiro texto deixando a seguinte mensagem aos nossos associados: se perguntarem qual a importância da SBC para o Brasil, a resposta é pelo menos de que a SBC trabalha para garantir que uma geração de estudantes seja empoderada com Pensamento Computacional de forma a atuar com alta competência em suas profissões, bem como luta para que os profissionais da área, de hoje e futuros, possam exercer a profissão de forma livre para suprir as necessidades do mercado e assim gerar mais riqueza para o país.

Bem, creio que não produzi lá um texto nem muito leve num muito simples, com exceção, imagino, da menção ao Candy Crush, vício do qual já consegui me livrar.

Lisandro Zambenedetti Granville
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Lisandro Zambenedetti Granville é presidente (2015-2019) da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e professor do Instituto de Informática (INF) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).