O que você deveria saber antes de ingressar em um mestrado?

O que você deveria saber antes de ingressar em um mestrado?

por Tancicleide Gomes 

Este texto faz parte de uma série que aborda os principais aspectos a serem considerados para ingressar em uma carreira acadêmica, mas que pode servir para quem deseja fazer mestrado profissional também. O nosso papo, por ora, aborda os principais aspectos relacionados muito mais ao planejamento e organização, com ênfase no processo de seleção. 

O mestrado acadêmico sempre fez parte dos meus planos, pelo menos, uns três anos antes de eu terminar a graduação. Ingressei no ensino superior sem ter a menor noção do que esperar, mas pouco tempo depois eu tinha (apenas) uma certeza: eu queria ser pesquisadora. Como decidi cedo1, usei isso a meu favor, de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Mas, diferentemente da graduação, eu queria saber para onde eu estava indo2. Trago  minhas descobertas e aviso que você pode não gostar de algumas.

O mestrado acadêmico faz parte do percurso de tornar-se um pesquisador. Se você sabe o objetivo de um mestrado e sabe diferenciar stricto sensu de lato sensu, sugiro ir para o próximo tópico. Se não sabe, eu acho que você deveria ficar por aqui, hein? Há dois tipos de cursos de pós-graduação: stricto sensu e lato sensu. Na primeira categoria, estão os mestrados e os doutorados, que podem ser acadêmicos ou profissionais. O mestrado e o doutorado acadêmico têm como objetivo desenvolver e formar pesquisadores e docentes que irão atuar no âmbito acadêmico. 

Entre os mestrados e doutorados acadêmicos e profissionais existe apenas uma diferença, o objetivo: o profissional tem ênfase no mercado de trabalho. Ou seja, ter a mesma capacidade de resolver problemas por meio do pensamento científico, mas estar envolvido em resolver demandas aplicadas a empresas, sejam elas públicas ou privadas, organizações não governamentais, entre outros. Inclusive, recomenda-se que o mestrado profissional seja cursado depois de algum tempo no mercado, para um melhor aproveitamento do curso a partir da maturidade adquirida pela experiência profissional.

EDIT: Obrigada ao Dennys Leite (UFRN) e ao Clodis Boscarioli (UNIOESTE) por sinalizarem que os mestrados e doutorados profissionais são stricto sensu também. O Dennys aponta, inclusive, que as sugestões aqui trazidas se aplicam para o mestrado profissional também. Então, voilà, mudei o título para ser mais inclusivo.

Os cursos de pós-graduação lato sensu abrangem a especialização e o MBA. No frigir dos ovos, os dois primeiros são especializações, porque embora MBA seja um acrônimo de Master Business Administration, no Brasil não possui o nível de mestrado, consiste em um um tipo de especialização destinada a executivos e gestores com foco no mercado e em negócios. A especialização permite a um profissional se informar e/ou se atualizar sobre um determinado tema e desenvolver habilidades específicas. 

Os cursos de pós-graduação stricto sensu, conferem diplomas e os de especialização, certificados. Inclusive, existe o estágio pós-doutoral que você faz para tornar-se uma pessoa com um profundo e intenso conhecimento científico de excelência. O pós-doutorado não confere um novo título, certo?

Em todos esses casos, você pode cursar quantos desses você desejar. Mas, se você quiser fazer mais de um doutorado, por favor, procure um terapeuta. Sim, eu estou te julgando.

No Brasil, você tem poucas opções para atuar como pesquisador. Quase sempre, a trajetória consiste em tornar-se professor vinculado a um Programa de Pós-Graduação (PPG) em uma instituição de ensino superior (IES) e, então desenvolver também atividades de pesquisa.

Também porque, muito embora exista uma ocupação no Comitê Brasileiro de Ocupações (CBO) para pesquisadores, eu não conheço nenhum pesquisador na área de Ciência de Computação que trabalhe exclusivamente com pesquisa no Brasil. Essas vagas existem, mas elas são muito raras.

Por que isso importa? Você precisa ter em mente que seguir a carreira acadêmica significa, na maioria dos casos, atuar nas dimensões de ensino, pesquisa e extensão. Na dimensão de ensino, as responsabilidades compreendem preparar e ministrar aulas, atender alunos, participar de algumas reuniões e comitês; talvez você até assuma alguma coordenação. A dimensão de extensão propicia que a universidade se reconecte com a sociedade por meio de projetos que visam resolver problemas latentes. A dimensão de pesquisa, por sua vez, abrange o desenvolvimento de projetos de pesquisa, orientação de alunos na graduação e pós-graduação. Como eu fiquei quando descobri? Sim, extasiada. Você, não?

♫ Clara como a luz do Sol, clareira luminosa nessa escuridão […] ♬ Por que você quer realizar um mestrado acadêmico? Se você ainda não tem a resposta para essa pergunta clara em sua mente, trago verdades: você pode estar prestes a investir seu esforço em vão. Motivos errados ou pouco claros podem te levar a um caminho muito entediante, porque você pode se sentir preso a algo muito diferente do que você achava que seria ou, pior ainda, algo que não te realiza. 

O que eu considero motivos errados? Buscar o mestrado porque não conseguiu uma posição no mercado de trabalho, por exemplo, pode gerar uma baita frustração. Porque, ora, ora, o seu título não vai garantir um emprego. Felizmente, você não precisa ingressar em um mestrado para descobrir se gostaria ou não de cursar um. Existem maneiras mais tranquilas e que te custam menos esforço e tempo para saber disso, e algumas delas são:

  • Buscar um professor para tentar realizar um projeto de Iniciação Científica durante a graduação. Assim, você pode ter um vislumbre do que pode vir a ser a experiência do mestrado. Eu digo vislumbre, porque essas experiências podem variar muito, mas isso merece outro artigo. Tenho bons, muitos bons e maus exemplos de vivências, tenha você a sua.
  • Conversar com alunos de mestrado em sua área de interesse. Converse com quem vivencia o futuro que você pretende alcançar, descubra como funciona a sistemática de trabalho em um mestrado, entre outros aspectos. 
  • Conversar com desistentes para entender o porquê de desistirem. Talvez você se veja nas situações que eles retratem ou você se sinta apaixonado exatamente pelos motivos que os fizeram desistir. Vai saber. 
  • Cursar disciplinas como aluno especial. Existe a possibilidade de cursar algumas disciplinas de um PPG e ter estes créditos computados posteriormente caso você ingresse. Em algumas das situações, você pode cursar ainda como graduando. Esta pode ser uma oportunidade interessante para: descobrir mais sobre um determinado tema de pesquisa de seu interesse, conhecer o PPG, conhecer seu possível orientador (caso ele seja o professor da disciplina). Há professores que permitem que você curse como ouvinte. Isso pode ser bem interessante, porque você vivencia toda a experiência, mas os créditos da disciplina não podem ser computados caso você ingresse neste PPG.
  • Frequentar um grupo de pesquisa. Uma das maneiras mais ricas de vivenciar o clima da pós-graduação. O recomendável é buscar essa oportunidade junto a grupos que abordem temas que você ache relevantes ou de algum professor cujas pesquisas você julgue interessantes. Os grupos inter e multidisciplinares podem ser uma grata surpresa. Tente  experimentar se você não tiver nada muito fixo em mente.

A seleção para o mestrado pode ser o seu novo vestibular. As seleções para ingresso no mestrado acadêmico podem variar muito de um PPG para outro. Se você se preparou adequadamente, essa experiência pode ser muito tranquila3.  O que eu entendo por se preparar: ter objetivos claros, estudar os editais e estabelecer um contato inicial com seu possível orientador. Ter os objetivos claros implica, inclusive, em encontrar a combinação entre o PPG, a linha de pesquisa e um possível orientador. Os PPGs possuem diferentes linhas de pesquisa, e professores com experiências e habilidades que podem ser imensamente diferentes entre si. 

Nem sempre você vai conseguir encontrar a linha de pesquisa desejada em uma universidade perto de casa, ou ainda pode ser que o professor não tenha vagas de orientação disponíveis para o semestre que você pretende ingressar.  Então, você precisa considerar que, se pretende mudar de cidade, pode ser que não exista a possibilidade de voltar ocasionalmente para casa a fim de rever os parentes. Além dos custos, financeiros e emocionais, envolvidos com a mudança em si. No caso de não haver vagas de orientação disponíveis, você precisa ponderar se pretende esperar que apareçam vagas ou se pretende buscar a orientação de outra pessoa.

Pensando no meu ingresso no mestrado, eu estabeleci metas e rascunhei objetivos sobre onde eu desejava chegar. Inicialmente, selecionei os principais programas de pós-graduação que eu gostaria de ingressar. Eu li atentamente seus editais (comecei pelos anteriores), compreendi as regras e os requisitos de ingresso. Durante algum tempo, as pessoas simplesmente me perguntavam como ingressar em um programa A ou B, porque eu sabia responder com muitos detalhes. Sou sempre motivo de piada entre meus amigos por isso. Eu admitiria perder o ingresso em um PPG porque não tinha preparo, mas não porque eu não havia lido o edital com atenção suficiente. Então,  criei um conjunto de requisitos que eu precisaria atender para ter um desempenho que me permitisse ingressar nos cinco PPGs selecionados, e usei os editais mais rigorosos como referência, porque isso me ajudaria  a ingressar nos outros. 

Eu decidi que participaria de todas as oportunidades que me deixassem mais próximas do que eu desejava alcançar no futuro. Quando disse que eu usei o tempo ao meu favor, quis dizer que eu participei de programas de estágio (2013-2015), Iniciação Científica (2011-2014), projetos de extensão (2010-2015), além de atuar profissionalmente em uma edtech4(2015). Eu ainda organizei e participei de eventos locais, regionais e nacionais, publiquei alguns artigos, fiz parte de comissões e comitês universitários (ex. Comissão Própria de Avaliação), Empresa Júnior, Diretório Acadêmico e tudo o mais que eu acreditasse que podia me aproximar de ter uma experiência completa e me preparar para o mestrado. 

Não disse que fiz isso da melhor maneira e nem considero algo recomendável (especialmente nessa quantidade de atividades simultâneas), mas você pode fazer melhor do que eu e escolher melhor como usar seu tempo. No fim, eu me candidatei a apenas dois programas de mestrado: em um, passei em 1º lugar, (conceito CAPES 3); no outro, em 24º (conceito CAPES 7), ambos com possibilidade de bolsa pelo CNPq. Deu para perceber como as regras do jogo podem ser muito flutuantes? 

Estabelecer um contato inicial com seu possível orientador. Dê pelo menos um aceno! Alguns editais sugerem manifestar interesse ao orientador previamente e a aprovação depende do aceite formal do orientador. Em outros, sugere-se ao menos contatar o orientador e alguns editais sequer mencionam esse aspecto. No entanto, especialmente se você não conhece ou não trabalhou anteriormente com seu possível orientador, sugiro fortemente que você entre em contato. Tenha em mente que se trata de uma parceria de trabalho, sendo assim, sempre vai ser uma boa conhecer a pessoa com quem você vai dividir dois anos da sua carreira.

Eu não sou uma pessoa muito ajuizada, e é por isso que estou aqui te dizendo para não fazer o que eu faço. No mestrado, o meu primeiro contato com minha orientadora foi uma longa mensagem enviada por uma rede social (Patricia, sua linda!), mas isso pode não funcionar com todo mundo. Eu listo alguns motivos: 

  1. A pessoa pode se sentir invadida, visto que as redes sociais não são necessariamente um espaço para discussão sobre trabalho. Sobretudo se você bancou o stalker e adicionou a pessoa sem nenhum contato prévio; 
  2. A pessoa pode não acessar com frequência as redes sociais e a sua mensagem pode se perder no limbo. Certo, isso pode acontecer por e-mail também. Um caminho pode ser chegar ao professor por meio dos orientandos, alguém pode mandar um e-mail e dizer que você gostaria de entrar em contato e saber sobre possibilidades de orientação. Um e-mail de um conhecido pode fazer toda a diferença em uma caixa de e-mails lotada, mesmo que haja apenas uma mediação e não uma indicação em si.

Existem outros aspectos que você precisa considerar para realizar um mestrado acadêmico e falaremos deles mais adiante.  Tentei escrever uma matéria que eu gostaria de ter lido antes de ingressar no mestrado e espero que ela possa ter sido util para você. Sou profundamente apaixonada pela minha carreira acadêmica e minhas experiências são forjadas em amizades e orientações que me permitiram ser muito feliz em minha escolha, mas tive amigos cujas experiências foram menos divertidas. Escrevi esse texto por eles também. Existem ainda algumas particularidades que você vai descobrir apenas quando ler o bendito edital de seleção!

Não tive a intenção de explorar o assunto exaustivamente, mesmo porque abordaremos alguns dos tópicos mais delicados no próximo texto: a escolha (mútua) do seu principal parceiro de colaboração, a escolha de um tema de pesquisa e também o que se espera de um aluno de mestrado. Iremos conversar sobre o processo de amadurecimento, que consiste em sair de uma relação de orientação vivenciada na graduação para o processo de orientação experienciado no mestrado, e a estreita relação disso com a produção do seu trabalho.

1A minha experiência foi traçada a partir dos incentivos e oportunidades que tive, mas tudo bem se você tiver uma experiência diferente, tá bem?!

2Note que em algum momento a graduação tornou-se apenas um passo que me ajudava a chegar em meu objetivo: o mestrado. Essa percepção teve seus impactos, positivos e negativos, sobre a minha experiência como graduanda. Eu curti.

3A quantidade de bolsas foi reduzida em diversos PPGs, então você precisa ter em mente que, se deseja obter uma bolsa, pode ser mais difícil de conseguir no cenário atual. Não são ofertadas bolsas de fomento (CNPq, CAPES) em cursos de mestrado e doutorado profissionais.

4Uma empresa de desenvolvimento de tecnologias educacionais, do termo educational technology.

Tancicleide Gomes

 

 

 

 

Como citar esse artigo:
Gomes, T. C. S., 2020. O que você deveria saber antes de ingressar em um mestrado acadêmico? SBC Horizontes. ISSN: 2175-9235. Disponível em: http://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/04/22/ingressar-mestrado-academico/

 

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