A quem servem os dados?

A quem servem os dados?

por Marcos Sunye

Temos que consolidar um projeto de dados abertos amplo e abrangente, contínuo e confiável. Sem isso, Big Data e Inteligência Artificial nunca serão tecnologias usadas para ampliar direitos e liberdades e continuarão desempenhando cada vez mais o papel de acúmulo de concentração de poder e renda.

Nossos gestores raramente têm a dimensão da importância estratégica dos dados produzidos pelas instituições que dirigem. Do pequeno instituto municipal que controla a circulação dos ônibus até os grandes órgãos federais que centralizam bases imensas de saúde e educação, a cultura predominante ainda é a que foi consolidada na segunda metade do século XX: a de que cada um deve publicar suas pesquisas e análises, sem abrir os próprios dados, utilizando a parte que lhe cabe, sem considerar a importância de uma visão geral. Com exceção de institutos mergulhados na cultura de dados como IBGE ou INPE, por exemplo, a maioria guarda seus melhores dados para publicar suas pesquisas e fazer suas próprias ferramentas de acesso e busca.

A ausência de um plano sério de dados abertos, que disponibilize tais dados de forma consistente, contínua e atualizada, gera problemas graves para a nossa sociedade e priva nossos analistas de dados, estatísticos, matemáticos, engenheiros, cientistas da computação, dentre outros, espalhados pelo país, de fazerem e publicarem estudos muito mais precisos e abrangentes.

O outro problema é dificultar, em muito, a integração entre as várias bases de dados para produzir informação inovadora e amplificadamente relevante. Por exemplo, ao integrar a base de dados de circulação de ônibus e metrô com dados do IBGE, do trânsito ou do clima, poderão ser produzidas análises muito mais complexas, valiosas e interessantes. Informações de verdadeira utilidade pública decorrentes de uma percepção integradora e inteligente, somatório das partes, mas com potencial de ser muito mais que a mera soma delas. É um conhecimento holístico. Estratégico. Fundamental na sociedade da informação.

Mas se esses dados, depois de integrados, deixarem de ser atualizados, acabarão se tornando inúteis, pois as informações ficarão defasadas e ultrapassadas, perdendo a função vital de alimentar a inteligência coletiva que gere processos complexos, mesmo que decorrentes de atitudes simples – como as de alimentar o sistema de informações. Afinal, quem vai investir em desenvolver aplicativos baseados em dados que nem sabemos quando serão atualizados? Ou se ainda são válidos?

Durante a crise do Covid-19, a Fiocruz, o IBGE, o Ministério da Saúde e as Secretarias Estaduais de Saúde continuarão fazendo um ótimo trabalho com as bases que possuem , com a informação que trocam entre si e com os cientistas de que dispõem. Mas todos juntos poderíamos fazer muito mais. 

Por exemplo, o Brasil tem dados e cientistas suficientes para, nesse momento de crise, fazer modelos de previsão da entrada em colapso de cada regional de saúde com muito mais capilaridade e precisão.

Mas o Brasil não vai fazer, porque os dados de infraestrutura disponíveis são de fevereiro e os dados de contaminação e óbitos são atrasados e pouco confiáveis. Além disso, os dados que seriam confiáveis para um modelo de previsão, como os de internação, não são abertos. A carência de previsões e falta de confiança nos dados disponíveis dá espaço a teorias radicais que se alternam entre o pânico geral e a irresponsabilidade total.

O caminho, para ajudar a construir políticas públicas para resolver um problema complexo, como a pandemia que assola o mundo, é informação de qualidade, resultado de trabalho colaborativo entre diferentes áreas que precisam atuar conjuntamente para oferecer ações efetivas. E isto só será conseguido com abertura, colaboração, integração.

A Lei de Transparência sempre teve uma prioridade muito mais orçamentária e de acesso às contas públicas em detrimento do fortalecimento social. Na minha opinião, a transparência pública é uma conquista básica e trivial decorrente da abertura dos dados públicos, o maior interesse social vem da possibilidade de ampliar o conhecimento que a população tem sobre sua qualidade de vida ou sobre os serviços de que dispõe.

Cada cidadão tem o direito de saber quanto tempo e porque vai esperar no ponto de ônibus, na matrícula da escola, na fila da cirurgia ou, na atual crise, por um leito de UTI. E o mais desanimador é que essa informação existe, mas nem sempre está disponível. Aplicativos que forneçam ao cidadão os serviços a que ele tem direito só podem surgir se os dados estiverem disponíveis. E quem tem a obrigação de prover esses dados é o Estado.

O imenso avanço tecnológico no uso de dados e na conectividade deve beneficiar a sociedade com um todo e não centralizar a informação e o controle. É obrigação do Estado o compartilhamento de informações estratégicas, desde que não comprometam a privacidade e as liberdades individuais. Temos que consolidar um projeto de dados abertos amplo e abrangente, contínuo e confiável. Sem isso, Big Data e Inteligência Artificial nunca serão tecnologias usadas para ampliar direitos e liberdades e continuarão desempenhando cada vez mais o papel de acúmulo de concentração de poder e renda.

Sobre o Autor

Marcos Sunye é doutor pela Université de Bourgogne com Pós Doutorado no Laboratório de Informática de Paris VI (LIP6) da Université Paris VI (Jussieu). Atualmente é professor Titular da Universidade Federal do Paraná, atuando principalmente nas áreas de banco de dados, integração, análise de desempenho e bibliotecas digitais. Liderou o departamento de informática, foi Diretor do Centro de Computação Eletrônica da UFPR, foi fundador e diretor geral do Centro de Computação Científica e Software Livre (C3SL). Coordenou o projeto Paraná Digital que especificou, desenvolveu e implantou 2100 laboratórios de informática em escolas públicas do Paraná; é um dos responsáveis pela criação da biblioteca digital da UFPR. Foi membro da Comissão de Sistemas de Informação e Telecomunicações do Estado Do Paraná. Foi presidente do Comitê Gestor da rede COMEP, projeto da RNP de implantação de fibras ópticas na região metropolitana de Curitiba de 2007 até 2014. Coordena o projeto Inclusão Digital Integrada em parceria com o Ministério das Comunicações. Está na direção do Setor de Ciências Exatas desde 2013 e é membro do Conselho Universitário da UFPR.

Como citar esse artigo:
Sunye, M.S., 2020. A quem servem os dados? SBC Horizontes. ISSN: 2175-9235. Disponível em: http://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/04/15/a-quem-servem-os-dados/

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