O acaso em nossas vidas e o que pensamos que somos – um pouco de matemática e ficção

O acaso em nossas vidas e o que pensamos que somos – um pouco de matemática e ficção

Por Leonardo Rangel Augusto

Mentes humanas possuem uma capacidade excepcional de detectar padrões, mas como elas lidam com o acaso? Em “The Drunkard’s Walk – How Randomness Rules Our Lives” [1], ou “O andar do bêbado” [2], Leonard Mlodinow destaca o papel do acaso no nosso cotidiano e aborda algumas questões inquietantes. No decorrer da vida, eventos e experiências a que somos expostos contribuem para construirmos padrões que passam então a influenciar a forma como percebemos a realidade. Mas como determinar se nossas observações pontuais representam o caso médio ou eventos extraordinários, frutos do acaso? Ou, em que ponto esses padrões tornam-se vieses, filtrando e influenciando nossa futura percepção da realidade? Seriam as superstições tentativas de dar sentido a eventos aleatórios ou de origem até então desconhecida, que não se encaixam nesses padrões? Sem compromisso de solucionar tantas questões, Mlodinow caminha de forma “sóbria” e hábil por ramos da Matemática e Filosofia com uma narrativa leve e bem conduzida. Embora haja publicações bem mais profundas sobre cada um dos temas, “Drunkard’s Walk” agrada muito devido à abordagem.

One, The Drunkard’s Walk – How Randomness Rules Our Lives.


No ramo de ficção, “One, No One and One Hundred Thousand” [3], de Luigi Pirandello, é uma obra fantástica. Nela, o protagonista Gengè reflete sobre como diferentes pessoas ao seu redor o vêem, e como cada uma constrói para si uma persona de Gengè que nem sempre coincide com a percepção que ele tem de si próprio. Em uma espiral angustiante, Gengè aprofunda-se na análise dessas múltiplas personas, em busca do seu verdadeiro “self” e de uma reflexão metafísica sobre sua existência. Com a narrativa em forma de monólogo, Pirandello transporta o leitor para o imaginário de Gengè e invariavelmente provoca reflexões sobre quem nós (pensamos que) somos, o que representamos e para quem, as concepções que temos para com os outros e instiga a curiosidade de desafiar essas concepções. Certamente uma leitura para um dia ensolarado. 🙂

One, No One, and One Hundred Thousand.

Referências

[1] MLODINOW, Leonard. One, The Drunkard’s Walk – How Randomness Rules Our Lives. Vintage. 2009.
[2] MLODINOW, Leonard. O andar do bêbado. Zahar. 2009.
[3] PIRANDELLO, Luigi. One, No One and One Hundred Thousand. Spurl Edition. 2018.

Sobre o autor

Leonardo Rangel Augusto

Leonardo Rangel Augusto é Engenheiro de Software na Cisco Systems em Vancouver – Canadá. Com bacharelado em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Ouro Preto e mestrado em Ciência da Computação pela Universidade Estadual de Campinas, Leonardo tem experiência como desenvolvedor de Software Linux, de ferramentas para virtualização, de Big Data e sistemas de software sendo autor de patentes e publicações.

Como citar esse artigo:
AUGUSTO, Leonardo Rangel. O acaso em nossas vidas e o que pensamos que somos – um pouco de matemática e ficção. SBC Horizontes. 2020. ISSN: 2175-9235. Disponível em: http://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/06/01/o-acaso-em-nossas-vidas-e-o-que-pensamos-que-somos-um-pouco-de-matematica-e-ficcao/ Acesso em: 1 junho. 2020.

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