Programador é indiciado por queda de avião que matou 113 pessoas


por Jade Scobri | Curitiba, Brasil

Na conclusão do inquérito policial que investiga a queda do avião da Capivaras Airlines, em agosto do ano passado, a delegada Josefa dal Gema indiciou o programador Malcom Pila por homicídio culposo. Pila era desenvolvedor de software na Vina Systems, considerada a startup unicórnio mais disruptiva na área da saúde. 

A acusação envolve a morte da piloto Alberta Dumont e de outras 112 pessoas a bordo do avião DX486, que caiu após a aeronave acusar falta de combustível na região da serra do mar. O avião, que ia de Pato Branco à Curitiba, parou de responder aos contatos da torre de comando e seguiu o curso em direção ao oceano, caindo na área de proteção ambiental de Guaraqueçaba.


Imagens obtidas por exclusividade via DALL-E-2

Dumont atuava há mais de 13 anos como piloto da Capivaras Airlines, com milhares de horas de voo. Ela usava o sistema vestível iWear, desenvolvido pela Vina Systems e adotado pela Capivaras, quando apresentou perda total de suas funções. Segundo os dados registrados por dispositivos do próprio sistema e armazenados na nuvem minutos antes do acidente, a piloto apresentou níveis de estresse extremamente altos, ativando o dispositivo de relaxamento do sistema que causou a paralisação completa das suas funções motoras. 

Paralisada, a piloto não pôde responder às orientações da torre de controle e pousar o avião com segurança. De acordo com o inquérito, Pila foi o responsável por implementar o código que gerou o mau funcionamento do dispositivo. 

Segundo a delegada, houve erro na programação que determina a ativação do software do dispositivo de relaxamento do sistema. “Nós temos o requisito funcional que Malcom ficou responsável por implementar. Podemos dizer que ele foi negligente na implementação, deixando brechas para falhas graves, como essa que levou à paralisação da piloto e à queda do avião com outras 112 a bordo. Definitivamente não foi um acidente!

A SBC Horizontes obteve acesso à documentação de requisitos do sistema e a parte do seu código. A especificação em questão consiste em três cartões amarelos: o primeiro documenta a História de Usuário que indica o requisito funcional a ser implementado; o segundo apresenta o fluxo de eventos que especifica a sequência de comandos que deveriam ser programados; e o terceiro informa os valores que deveriam ser usados para ativar e desativar o sistema de relaxamento. 

A SBC Horizontes procurou docentes do Departamento de Informática da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pediu que analisassem o caso. O Prof. Marcos Castilho, doutor e professor de programação com domínio de várias linguagens, analisou a documentação e o código desenvolvido em Pascal. Para o Professor Castilho, há um problema evidente com o código. 

O código chega a ser ridículo, com um problema grosseiro na chamada da função responsável pelo relaxamento do usuário. Em vez de utilizar o comando WHILE, o programador utilizou o comando REPEAT, o que faz com que a função de relaxamento seja sempre chamada pelo menos uma vez, mesmo quando não deveria ser chamada! Essa certamente é uma das causas do problema, porém é preciso investigar mais a fundo.” 

Castilho é contundente ao criticar a qualidade do código e o seu programador: “Um código pior do que este só mesmo se estivesse usando GOTO! E a indentação, então? Terrível! Minhas alunas e alunos aprendem a fazer um código melhor do que este já no primeiro semestre do curso!”.

Código implementado Código alternativo
repeat
AtivarRelaxamento(iStress);
    
i
Stress := fMedirStress();
until iStress <= 99;
while iStress > 99 do

  begin

    fAtivarRelaxamento(iStress);

    iStress := fMedirStress();

  end;

A SBC Horizontes não conseguiu contactar Pila para comentar o caso. Segundo comentário de sua mãe na conta da SBC Horizontes nas mídias sociais, “Malcom está mto mal…é uma injustiça o que tao fazendo com ele. Mas a corda sempre arrebenta do lado mais fraco mesmo. peço a deus que encontre a verdade e os culpados.”  

Ainda não se sabe porque o copiloto não assumiu o controle da aeronave, porém há suspeitas de que seu dispositivo vestível também tenha apresentado falhas. “O dispositivo do copiloto não registrou nenhuma modificação em seu nível de estresse nos 30 minutos finais do voo, o que nos leva a suspeitar de falha no registro da informação”, disse a delegada Josefa dal Gema.

A SBC Horizontes continua acompanhando as investigações e em breve trará mais detalhes sobre o caso.

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Jade Scobri, Jornalista Científica
Especialista em Tecnologias Computacionais

 


O Caso do Vestível Controlador © 2022 by Roberto Pereira, Fabiano Silva and Leticia Mara Peres is licensed under CC BY-NC-SA 4.0.