Distorção de imagem
A história começa quando o protagonista fica assustado ao descobrir que seu nariz é torto. Ele nunca tinha percebido. Aqui a narrativa já me pegou, porque também passei por isso. Me senti o personagem de Luigi Pirandello no livro Um, nenhum e cem mil. — Torto? Desde quando?
A história parte do nariz e vai para o corpo inteiro. Faz o sujeito tensionar sua identidade.
— Se eu não sou quem eu penso que sou, quem sou?
A partir dali, foi só angústia.
— Como viver sabendo que os outros me conhecem como alguém diferente de quem eu sei que sou?
O homem fez várias tentativas para se conhecer. Tentou pelo espelho. Queria se surpreender com a naturalidade dos atos. Não deu certo. Achou tudo falso. Inventado para o momento. Sou um estranho em mim, pensou.
Assim como na história, a gente também não consegue se ver vivendo. E cada pessoa nos vê de um jeito único. Existem várias versões de nós.
— Então vocês acham que a realidade é igual para todos? — devaneia o personagem de Pirandello.
São muitas realidades. Tem a minha. A tua. A nossa. Também tem realidade virtual, aumentada, estendida, diminuída e agora, também, a sintética.
Realidade sintética?
Sim, aquela produzida por algoritmos.
É uma realidade que não existe no mundo, mas faz parte do mundo. Um admirável mundo novo tão artificial que parece verdadeiro. Assim como o mundo imaginário em que habito. São muitos mundos.
Como o personagem do livro, tentei me olhar de verdade. Mas só consegui me ver pelas lentes do instagram. Fotos, filtros e alguns fakes. Não saí de casa. Mas quem se interessa?
Facilmente me editei em uma cafeteria. Uma foto e um comando. Simples assim. A realidade sintética não registra o mundo, ela inventa um.
Mas nem sempre é fácil criar a própria realidade. Tentei uma, duas, três vezes. Sempre eu. Sempre muito diferente de mim. O chatGPT reinterpretou meu rosto de um jeito incompatível. O Nano Banana me deixou mais eu. Gostei da primeira, mas muito mais da segunda. Resultado artificial mais parecido com o real.
— O real também é artificial — lembrou o homem.
Então, retoca o nariz, por favor.
Arte: Niki (@jururuart)
Revisão: Tiago Bergenthal (@tiago_bergenthal)
Texto produzido durante o módulo Mosaico Santa Sede (@oficinasantasede & @rubempenz).
<h2>Como citar esse artigo:</h2>
<p>BASSANI, Patrícia Scherer. Distorção de imagem. <strong>SBC Horizontes</strong>, 06 jul. 2026. ISSN 2175-9235. Disponível em: < https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2026/07/distorcao-de-imagem/gt;. Acesso em: DD mês. AAAA</p>

Patrícia Scherer Bassani é doutora em Informática na Educação, professora, pesquisadora e escritora. Autora do livro Transformação Digital. Fundadora da Basic.femtech.