Dividir e conquistar

Dividir e conquistar

Por Andressa Bezerra

Estudantes e pesquisadores da área da computação costumam estar bastante familiarizados com o conceito de divisão e conquista. Talvez, justamente por isso eu tenha escolhido utilizá-lo no título deste artigo. Nada mais fácil do que começar uma conversa com um assunto que o outro conhece. Não é mesmo?!

Porém, caro leitor, confesso que isso não passou de um truque barato para chamar a sua atenção (e quem nunca usou de clickbait que atire a primeira pedra). Como mulher, te digo que, infelizmente, às vezes é necessário usar de truques para se fazer ser ouvida em um local machista.

Difícil perceber nossa área como um local machista?

Bem, vamos lá. Me acompanhe nesse exercício…

Quando te pedem uma indicação de um livro de Banco de Dados, que autor vêm primeiro a sua mente? Eu de imediato penso no C.J. Date, e você? E se  a recomendação for sobre algoritmos? Cormen. E se for sobre Engenharia de Software? Sommerville. E se for sobre Sistemas Operacionais? Tanembaum.

Algo em comum (além da inquestionável genialidade)? Todos homens!

Difícil para mim, como mulher e cientista da computação, ter que admitir isso, mas demorei algumas tantas perguntas até conseguir pensar em uma indicação de livro escrito por uma mulher.

Você deve estar pensando: Mas isso faz da nossa área um local de machismo? Não conseguir pensar em um livro escrito por uma mulher é o suficiente para tal?

Talvez não, mas vamos adiante.

Me acompanhe nesse outro exercício…

(Re)Lembre e responda: Quantas mulheres haviam em sua turma de graduação? Quantas professoras você teve em suas aulas de tecnologia? Quantas mulheres há em seu local de trabalho?

Bem, quando eu entrei pela primeira vez em uma sala de aula da área de tecnologia, na minha graduação em Ciência da Computação, éramos três mulheres, em uma turma de mais de quarenta alunos. Dez anos depois, voltei a entrar em salas de aula de computação, dessa vez como professora. Nos últimos seis semestres, meu recorde de estudantes mulheres em uma mesma turma foi, pasme, quatro.

Por sorte, nunca termino um semestre sem discutir com os meus alunos sobre as razões por trás dessa ausência ou invisibilidade feminina, buscando sempre não cair no lugar comum de educar homens a respeito de nossa existência e necessidades.

Recentemente, durante uma das minhas aulas sobre Fundamentos de Ciência da Computação, questionei alguns dos meus estudantes sobre quais razões eles acreditam existir para em um sala como a nossa, com mais de 30 pessoas, só ter quatro mulheres. Ouvi de alguns (isso mesmo, no plural, soando quase como um consenso) um sonoro e alto “Porque elas não querem!”.

Precisamos, meus caros, estarmos alertas para perceber e compreender que o querer é um ato socialmente construído. E é justamente por isso, caro leitor, que eu gostaria de usar esse espaço para te dar um conselho: Leia mulheres!

Se elas não estão na indicação bibliográfica do seu curso, se não estão sentadas ao seu lado em sala de aula, se não são suas professoras, acredite: há motivos sociais e históricos para isso. Então, leia mulheres que te expliquem essas razões.

Leia Angela Davis (DAVIS, 2017) para saber porque há poucas mulheres ao seu lado nos locais de trabalho, leia Flávia Biroli (BIROLI et al., 2014) para compreender porque seus professores são praticamente todos homens, leia Audre Lorde (LORDE, 2019) para entender porque as mulheres “não querem” estar em espaços socialmente ocupados pelo masculino.

Leia!

Leia mulheres!

E que essas leituras nos torne capazes de falar não apenas sobre dividir e conquistar, mas também sobre definir e empoderar.

Feminismo e política: Uma introdução (BIROLI et al., 2014).

No livro Feminismo e Política: Uma introdução (BIROLI et al., 2014),  a historiadora Flávia Biroli e o cientista social Luis Felipe Miguel, argumentam e discutem de que modo o machismo e o patriarcado reduzem as oportunidades de participação social das mulheres.

Mulheres, cultura e política (DAVIS, 2017).

No livro Mulheres, Cultura e Política (DAVIS, 2017), a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis fala sobre questões culturais e políticas, secularmente vedadas como pautas públicas para mulheres, sobretudo mulheres negras.

Irmã outsider: Ensaios e conferências (LORDE, 2019).

Na obra Irmã Outsider: ensaios e conferências (LORDE, 2019),  encontram-se reunidos ensaios e conferências da poeta Audre Lorde. No livro, o olhar da Outsider, deslocado e estrangeiro, é capaz de análises certeiras sobre a necessidade de agirmos para transformar a sociedade.

 

Referências

BIROLI, Flavia. MIGUEL, Luis Felipe. Feminismo e política: Uma introduçao. Boitempo Editorial. 2014.

DAVIS, Angela. Mulheres, cultura e política. Boitempo Editorial. 2017.

LORDE, Audre. Irmã outsider: Ensaios e conferências. Autêntica. 2019.

Sobre a autora

Andressa Bezerra Ferreira

Andressa Bezerra Ferreira é professora de Engenharia de Software e Fundamentos de Ciência da Computação no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) . Possui graduação em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e é mestra em Computação pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Como citar este artigo:
FERREIRA, Andressa Bezerra. Dividir e conquistar. SBC Horizontes. 2020. ISSN: 2175-9235. http://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/09/dividir-e-conquistar/ Acesso em: 1 Agosto. 2020.

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