Entrevista com Alex Sandro Gomes sobre a série Professor Criativo e sobre a área de Informática na Educação

Isa:
Aproveitando minha ida ao Congresso Brasileiro de Informática na Educação que aconteceu em Uberlândia/Minas Gerais, realizei minha nova entrevista. Meu entrevistado foi o professor Alex Sandro Gomes da Universidade Federal de Pernambuco. Boa tarde professor!

Alex:
Boa tarde Isabela!

Isa:
A Revista Horizontes é focada principalmente para quem está entrando na área, o pessoal de graduação em computação; então primeiramente eu queria saber o que você pode dizer para eles – para esses novos alunos, novos pesquisadores. Que dicas você poderia dar, o que eles poderiam fazer para aproveitarem oportunidades na pesquisa e na extensão com a comunidade.

Alex:
Foi muito oportuna essa sua pergunta, porque as coisas na graduação, de uma forma geral, são muito paradas, muito engessadas. Os cursos ficam muito tempo sem atualização. Um aluno que entra hoje [no curso], vai entrar na carreira daqui uns 10 anos pelo menos, para começar o seu momento mais produtivo daqui a uns 10 anos. A primeira recomendação que eu tenho é que ele abra um pouco os horizontes, para não se preocupar somente com as matérias da faculdade, mas tentar ver quais são as luzes do futuro. Por exemplo: como vai ser a saúde daqui 10-15 anos? Como vão ser os medicamentos daqui 10-15 anos? O transporte daqui 10-15 anos? Como será a tecnologia de alimentos daqui 10-15 anos? Porque a área da Ciência da Computação é totalmente aplicada. São poucos que focam somente em lógica matemática, que vão trabalhar com desenvolvimento de novos algoritmos. A maioria dos alunos não vai trabalhar puramente na Ciência da Computação. A maioria vai aplicar esses conhecimentos de Ciência da Computação em alguma área, então é muito interessante que eles comecem a se preocupar como vai ser o seu futuro. Existem técnicas específicas para fazer isso, técnicas de foresight. Técnicas de visão de futuro. Mas principalmente algumas disciplinas do currículo de graduação que são menosprezadas e poderiam ser mais valorizadas, como por exemplo, Introdução à Computação, Sociedade e Computação. Elas são espaço muito legal para abrir um debate mais amplo sobre como vai ser o mundo quando eles estiverem começando uma carreira produtiva.

Isa:
Obrigada professor! A gente sabe que você (em conjunto com outros pesquisadores) está lançando uma série chamada Professor Criativo. Queria que você falasse um pouquinho dessa série, a ideia dela, a concepção e a execução.  O que os alunos podem esperar dessa série, dos 4 volumes que já aconteceram.

Alex:
Primeiro pra explicar essa série eu tenho que explicar um pouco de quem sou eu. Eu faço regularmente a revisão da minha missão no mundo a cada dois anos, e eu entendi que a minha essência é trabalhar com educação. De uns dois anos para cá eu percebi que a produção acadêmica em formatos ortodoxos como artigos em journals, conferências, etc… não são lidos por professores. Eu comecei a perceber porque me convidavam pra fazer uma revisão de artigos em congressos regionais, onde professores tinham seus trabalhos publicados, e comecei a perceber que eles só leem e citam livros… e como eu queria ter não apenas a quantidade de artigos, mas eu gostaria de que minha opinião fosse percebida e ouvida por colegas que estão na área de educação, entendi que não bastava eu fazer apenas a produção acadêmica, a comunicação acadêmica… eu também precisava fazer o que na academia a gente chama de difusão científica. Essa difusão é para apresentar em uma linguagem bem simples os conceitos que você trata de uma forma mais abstrata… então a série Professor Criativo foi totalmente concebida para os professores… o nome, a marca, as cores, o formato e a plataforma, a distribuição, a editora, os parceiros e os autores… tudo foi pensado para fazer chegar para eles essas mensagens, esse conhecimento que a gente acumula nesses últimos 30 anos, pelo menos, da comissão (CEIE da SBC) de atuação de pesquisadores brasileiros… tentando entender como isso pode contribuir com a educação, para que esse conteúdo chegue ao professor de uma forma muito tranquila; e a gente está atingindo um resultado bastante interessante… esta Série que está sendo vendida no site da editora já chegou a todos os estados da Federação, e o último volume (o 4º.) que pode ser baixado gratuitamente, em três semanas já teve mais de 1000 downloads em vários formatos digitais. Então conseguimos criar um produto que é desejado por quem queremos atingir. Essa é a história da série.

Isa:
Nossa que bacana Alex! Acho que é muito importante a difusão científica! Claro que somos pesquisadores, e por isso temos que focar nas publicações. Mas realmente precisamos focar também no público que queremos atingir, no caso os professores da educação básica, do ensino fundamental, do ensino médio, que são nossos parceiros. Achei a ideia excelente!  Fale um pouquinho das suas pesquisas na área de informática na educação.

Alex:
Vai na mesma linha do livro, só que em forma de produto. Nos últimos 15 anos nosso grupo concebeu diversos ambientes de aprendizagem, sempre tentando atingir uma excelência na experiência do usuário. A primeira realização do grupo foi a plataforma Amadeus. A pesquisa buscou resolver uma diversidade de problemas que acontecem em ambientes de aprendizagem, como por exemplo perceber o outro, como se comunicar melhor, como colaborar melhor. Sempre vendo o estudo do ponto de vista humano (Interação Humano-Computador), e aplicando isso na concepção de um sistema de informação que apoia processos cognitivos, processo colaborativo, processos sociais de construção do conhecimento. Esse foi nosso primeiro movimento: focar no design de ambientes de aprendizagem que são simples de utilizar e resolvem problemas conhecidos da atividade de educar. Em um segundo movimento o nosso grupo faz a entrega desses produtos. Primeiro concebemos, depois integramos e depois entregamos os produtos. E aí quando eu digo “produto” quer dizer que não fazemos só um protótipo, um ‘toy Project’ de laboratório. Nós tentamos fazer sistemas bem concebidos, com todas as camadas, documentação, etc. Isso inclui a camada de aplicação de boa qualidade. Finalmente fazemos a entrega. E essa entrega é feita em forma de software livre. Nós fechamos um ciclo da pesquisa integrando os vários resultados da mesma em um produto de software que se registra no INPI e coloca-se à disposição da população. A história que aconteceu com o OpenRedu é muito similar. Ele é uma rede social massiva, uma plataforma de MOOC (Curso Online Aberto e Massivo, do inglês Massive Open Online Course). Ele já foi utilizado por 35.000 – 40.000 pessoas e hoje distribuímos em http://openredu.org. Além desses dois primeiros, há também um outro software criado para proporcionar experiências bastante avançadas. Ele foi o último registramos há dois meses atrás: o Youubi. Ele é uma plataforma de aprendizagem ubíqua. Estamos tentando entender como as cidades podem ser ambientes de aprendizagem.
Na essência, o nosso grupo trabalha entendendo o comportamento humano e projetando os sistemas de informações que facilitam o processo de aprendizagem. Essa é a essência do trabalho do grupo. Quem tiver curiosidade tem um site que refeito recentemente e fica no endereço: http://ccte.cin.ufpe.br/

Isa:
Obrigada professor! Para finalizar, o que você pode dizer especificamente pra quem está querendo entrar na área específica de Informática na Educação?

Alex:
Essa é uma ótima pergunta por que uma fatia pequena da população de estudantes da Ciência da Computação se interessa pelo tema… normalmente quem se interessa pelo tema de informática educativa, ou tem uma história de vida, ou tem uma experiência, ou tem alguém na família, tem alguma coisa significativa (é como na educação especial, ninguém vai para educação especial se não tem um motivo íntimo para se envolver com tecnologia). No caso do Brasil a gente é uma comunidade muito grande porque a educação brasileira é muito ruim. Tem muitas histórias de vida que são marcadas por isso. No entanto, os cursos de graduação em Ciência da Computação não preparam as pessoas para atuar na área de informática educativa, e para você atuar nessa área é preciso entender o que é aprendizagem, você precisa entender o que é metodologia de pesquisa com seres humanos. Não faz muito tempo que eu entendi que uma carreira nesta área é uma carreira que tem que ser construída num percurso interdisciplinar… por exemplo uma graduação em Ciência da Computação, um mestrado em Cognição, bem profundo para entender o que são processos cognitivos, como você faz análises, como você coleta dados, como você faz pesquisa com seres humanos… e depois você pode voltar para o doutorado em Ciência da Computação… ou seja, se você focar somente na área de Ciência da Computação, sempre vai deixar aquela sensação de… poxa isso é realmente aprendizagem? Isso é realmente educação? Então é interessante que no meio do percurso, em algum momento, seja na graduação, no mestrado ou no doutorado, a pessoa tenha essa formação na área de aprendizagem especificamente lidando com processos cognitivos de aprendizagem para que ela tenha domínio do que é fazer a intervenção.
Muito se questiona dentro da grande área de Ciência da Computação qual é a contribuição da Informática na Educação para a computação. Eu tenho uma resposta muito simples para isso: Nós fazemos o design de sistemas de informação que apoiam o processo de aprendizagem, a resposta é muito simples então, é um processo de Engenharia de Software que tem como resultado um sistema de informação que apoia processos cognitivos… Então esses três elementos dessa frase definem o que é a área de informática educativa, e você tem que ter o cuidado de envolver o ser humano, etc. portanto se prepare pra entrar nessa área,  se prepare para fazer uma incursão para áreas afins, áreas que envolvam seres humanos.

Isa:
Alex muito obrigada pela sua participação na Revista! E que a gente continue mostrando os trabalhos do seu grupo, e do pessoal da área de informática na Educação!

Alex:
Foi um prazer enorme, eu que agradeço a oportunidade de passar esse recado para os nossos jovens colegas, obrigado.

Alex Sandro Gomes é Engenheiro Eletrônico (UFPE, 1992), Mestre em Psicologia Cognitiva (UFPE, 1995) e concluiu o doutorado em Ciências da Educação pela Université de Paris v (René Descartes) em 1999. Atualmente é Professor no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco, Bolsista de Produtividade Desen. Tec. e Extensão Inovadora 2 do CNPq e membro da Academia Pernambucana de Ciências. Atua com a concepção de ambientes colaborativos de aprendizagem. Publicou mais de 200 trabalhos em periódicos especializados e em anais de eventos, orientou ou co-orientou mais de 60 dissertações de mestrado e teses de doutorado na área. Atuou como coordenador dos eventos SBIE e IHC, promovidos pela SBC. Atuou como membro das comissões especiais de Interação Humano Computador e Informática Educativa da SBC. É líder do grupo de pesquisa Ciências Cognitivas e Tecnologia Educacional. É Coordenador das comunidades de software livre Amadeus e Openredu.

Para saber mais sobre o professor também acesse seu Currículo Lattes e sua página na UFPE.

 

Isabela Gasparini
Sobre Isabela Gasparini 7 Articles
Isabela Gasparini tem doutorado em Ciência da Computação pela UFRGS, com período sanduíche na TELECOM SudParis. É professora do Departamento de Ciência da Computação da UDESC e atua em dois programas de pós-graduação, o PPGCA - Programa de Pós-Graduação em Computação Aplicada e o PPGECMT - Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências, Matemática e Tecnologias. Atua na área de Interação-Humano Computador, trabalhando principalmente nos seguintes temas: adaptabilidade e personalização, avaliação de usabilidade, modelagem do usuário, acessibilidade, tecnologia educacional, sistemas de recomendação, sistemas cientes/sensíveis ao contexto, aspectos culturais, learning analytics e gamificação. Mais informações em: lattes.cnpq.br/3262681213088048