Open Source na Prática: o que uma experiência de extensão me ensinou

Open Source na Prática: o que uma experiência de extensão me ensinou

Por Michel Alexandrino de Souza

Todos os dias, milhões de pessoas usam Linux, Git, VLC, OBS Studio, Firefox e LibreOffice sem perceber que, por trás dessas ferramentas, existe uma cultura de colaboração aberta. Nesse ponto, software livre e open source deixam de ser apenas um modelo técnico e passam a ser também uma proposta social: compartilhar conhecimento, reduzir dependência tecnológica e ampliar autonomia para estudar, trabalhar e inovar.

Segundo a Free Software Foundation (FSF), software livre garante quatro liberdades essenciais: executar o programa para qualquer finalidade, estudar seu funcionamento, modificar o código e redistribuir versões originais ou adaptadas. Na prática, isso muda o jogo: quando existe liberdade para compreender e adaptar tecnologias, comunidades, escolas, universidades e instituições públicas ganham mais capacidade de resolver problemas locais.

Projetos open source podem ser um caminho concreto para fortalecer a extensão universitária em Computação, porque conectam formação técnica com impacto social. A partir de uma vivência concreta, fica evidente como o software livre ajuda a colocar em prática as diretrizes extensionistas: interação dialógica, interdisciplinaridade e interprofissionalidade, indissociabilidade entre ensino pesquisa-extensão, impacto na formação discente e impacto na transformação social.

No cotidiano digital, software livre já está em todos os lugares. Linux sustenta servidores, nuvens e dispositivos móveis. Git organiza trabalho colaborativo em equipes distribuídas. LibreOffice oferece uma alternativa acessível para produção de documentos em diferentes contextos educacionais e profissionais. Ferramentas como R e Python permitem análises de dados sem barreiras de licenciamento.

Composição de logotipos de diversos projetos de software livre e código aberto sobre um fundo cinza claro. Entre os ícones visíveis estão: Firefox (raposa de fogo), Kubernetes (leme azul), GIMP (animal com pincel), Linux (pinguim Tux), VLC (cone de trânsito), LibreOffice (documento dobrado), Audacity (ondas sonoras em fones), OpenStreetMap (lupa sobre mapa), WordPress (letra W), Node.js, Git (diamante vermelho com ramificações) e Apache Software Foundation (pena colorida).
Figura 2 – Exemplos de softwares de código aberto utilizados globalmente. Fonte: UNDP (2023).

Esse cenário é especialmente importante em contextos de desigualdade. Quando uma escola, laboratório comunitário ou projeto social depende de ferramentas fechadas e caras, a continuidade do trabalho fica vulnerável a contrato, orçamento e restrições de uso. Com tecnologias abertas, cresce a possibilidade de adaptação local, formação de pessoas multiplicadoras e continuidade institucional.

Open source, porém, não é solução mágica. Código aberto, por si só, não garante inclusão, qualidade ou justiça social. O impacto aparece quando há documentação clara, governança responsável, acolhimento de novas contribuições e compromisso com necessidades reais das pessoas.

Neste contexto, relato minha experiência no projeto de extensão Software Livre e Impacto Social: Contribuições que Transformam o Mundo, na Universidade Federal de Lavras. O projeto incentivava discentes a contribuir com software livre em código e documentação, registrar o processo e apresentar resultados à comunidade externa, especialmente comunidades de usuários e colaboradores de software livre, discentes de outros cursos, empresas, órgãos públicos e organizações do terceiro setor. No meu caso, a contribuição buscava atender a pessoas que lidam e manipulam arquivos digitais em seu cotidiano. Dados sobre o projeto podem ser consultados em SIG – Projetos de Extensão.

Resultados dessa contribuição foram apresentados em um evento aberto, a I Mostra de Contribuições em Projetos de Software Livre, voltada à socialização das experiências, à demonstração das soluções desenvolvidas e à troca de percepções com esse público. Assim, a ação extensionista não se limitava ao desenvolvimento técnico, mas incluía a circulação pública do conhecimento produzido.

Fotografia de um jovem sorridente, de barba curta e camiseta cinza, posando ao lado de um pôster acadêmico vertical. O pôster, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), tem como título "Organizador Automático de Arquivos para o Google Drive". O conteúdo do banner detalha uma contribuição para o repositório "100LinesOfCode", incluindo seções de introdução, contribuições realizadas com logotipos do Google Colab e Drive, códigos QR para acesso ao código-fonte e conclusão. O evento é a "I Mostra de Contribuições para Projetos de Software Livre", realizada em novembro de 2025.
Figura 3 – Apresentação do pôster na I Mostra de Contribuições em Projetos de Software Livre. Fonte: Autor (2025).

Esse formato extensionista teve forte efeito pedagógico. A aprendizagem deixou de ser uma tarefa individual e passou a ser um processo público, colaborativo e verificável. Quando outras pessoas vão ler, usar e manter uma solução, a qualidade deixa de ser apenas desempenho técnico e passa a incluir legibilidade, documentação, rastreabilidade e continuidade. Isso também amplia a responsabilidade de quem desenvolve.

Minha contribuição específica foi o desenvolvimento de uma ferramenta para organização automática de arquivos no Google Drive, executada no Google Colab que utiliza filtros como tipo de arquivo, data da última modificação, tamanho do arquivo ou palavras-chave no nome do arquivo. Mais do que a ferramenta em si, o aprendizado principal foi outro: contribuir com software aberto significa produzir conhecimento que outras pessoas podem entender, adaptar, reutilizar e melhorar.

A diretriz da interação dialógica apareceu de forma clara durante o desenvolvimento. O processo começou com uma apresentação inicial do projeto e da ferramenta que eu pretendia desenvolver em minhas conversas corriqueiras, para situar melhor as pessoas sobre o problema identificado, os objetivos da solução e o tipo de contribuição que seria realizada.

Em vez de construir uma solução fechada a partir de suposições técnicas, procurei ouvir dificuldades reais de uso em conversas informais com colegas do curso, colegas de estágio e familiares com certa familiaridade com tecnologia. Essas interlocuções ocorreram em momentos de convivência e intervalos de trabalho, quando surgiam relatos sobre dificuldade para localizar arquivos, duplicidade de documentos, nomes pouco padronizados e acúmulo de materiais em pastas do Google Drive.

Esses retornos ajudaram a identificar problemas recorrentes e serviram de base para ajustar nomenclaturas, critérios de classificação e a própria documentação. Na prática, a escuta influenciou decisões como priorizar filtros mais simples, manter categorias de saída mais legíveis e explicar melhor quais arquivos seriam movidos e por quê.

Esse processo reforça a noção de extensão como “via de mão-dupla” entre universidade e sociedade, destacada por Moacir Gadotti (2017). Não se trata de “levar conhecimento pronto” para fora da universidade. Trata-se de construir respostas em diálogo, reconhecendo também os saberes e práticas da comunidade. 

Embora o desenvolvimento estivesse no campo da Computação, as decisões envolveram organização da informação, comunicação, rotinas educacionais e gestão do trabalho. Problemas reais não chegam separados por disciplina. Por isso, soluções melhores nascem quando diferentes áreas participam da formulação do problema e da construção da resposta. 

Essa interprofissionalidade também apareceu quando observei experiências de outros contextos institucionais, como a empresa júnior da qual fiz parte. Ali, havia muitos documentos produzidos ao longo do tempo e, embora existisse uma organização por pastas no Drive, a inclusão contínua de novos arquivos tornava cada vez mais difícil manter a estrutura.

Na prática, o problema afetava pessoas com responsabilidades diferentes: quem produzia relatórios e atas precisava salvar versões atualizadas; quem atuava na gestão precisava localizar rapidamente documentos administrativos; e quem ingressava depois precisava compreender a lógica de organização já existente para não interromper o fluxo de trabalho. Esse tipo de problema não dizia respeito apenas à programação, mas também à gestão da informação, à continuidade do trabalho coletivo e às rotinas de diferentes pessoas envolvidas na produção, no acesso e no uso desses materiais.

Essa visão também combate um equívoco comum na formação técnica: achar que impacto exige complexidade. Em muitos contextos extensionistas, o que funciona melhor são soluções simples, documentadas, de baixo custo de adoção e fácil replicação.

A experiência também deixou evidente a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. No ensino, houve aplicação de conceitos de programação, versionamento e boas práticas de desenvolvimento. Na pesquisa, de forma mais modesta, foi preciso observar problemas recorrentes, levantar possibilidades de organização, comparar estratégias de automação e avaliar quais critérios faziam mais sentido para o uso pretendido. Na extensão, os resultados foram socializados em linguagem acessível, com possibilidade de reuso e melhoria contínua.

Quando essas três dimensões caminham juntas, a formação deixa de ser fragmentada. Teoria e prática se retroalimentam, e a tecnologia ganha sentido social de maneira mais concreta para quem desenvolve e para quem utiliza a solução.

No meu percurso, o impacto formativo foi decisivo. Desenvolvi habilidades de comunicação, documentação, colaboração, negociação e responsabilidade com quem utiliza a solução. Aprendi que qualidade em software também envolve clareza para continuidade por outras pessoas. 

Esse tipo de vivência fortalece o protagonismo estudantil. A pessoa discente deixa de ser apenas executora de tarefa e passa a atuar como coautora de soluções socialmente orientadas, com maior responsabilidade sobre o modo como a tecnologia circula e pode ser apropriada por outras pessoas. 

No nível local, a ferramenta mostrou utilidade por responder a dificuldades recorrentes identificadas nas conversas ao longo do processo, como tempo gasto para localizar materiais, acúmulo de arquivos pouco padronizados e a preguiça para reorganizar pastas manualmente. O impacto observado não esteve apenas na automação, mas também no fato de a solução oferecer um procedimento mais claro, replicável e documentado para lidar com uma demanda real de organização digital em rotinas acadêmicas e profissionais próximas à minha vivência. No nível mais amplo, o ponto central é outro: software livre favorece inclusão digital, reuso de soluções, transparência e continuidade de projetos.

Em ambientes educacionais públicos, isso é ainda mais relevante. Equipes convivem com limitação de infraestrutura, orçamento restrito e rotatividade de pessoas. Soluções abertas e bem documentadas ajudam a preservar memória técnica, reduzir retrabalho e acelerar a circulação de boas práticas entre instituições.

Esse impacto também é formativo: projetos open source ensinam, na prática, cooperação, revisão entre pares, responsabilidade coletiva e compromisso ético com quem usa a tecnologia, ao mesmo tempo em que fortalecem a continuidade das ações.

Ao olhar para a curricularização da extensão em Computação, a conclusão é direta: software livre oferece um caminho consistente para transformar diretrizes em prática. A interação dialógica ganha método. A interdisciplinaridade ganha contexto. A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão ganha concretude. O impacto na formação discente ganha profundidade. E o impacto social ganha continuidade, porque o conhecimento permanece aberto. 

Open source não é só sobre como desenvolver. É, principalmente, para quem desenvolver e com quem desenvolver. 

Para quem quiser conhecer melhor o projeto e até colaborar com melhorias, documentação, identificação de issues e resolução de bugs, o repositório pode ser acessado em https://github.com/josharsh/100LinesOfCode.

Agradeço aos docentes orientadores Julio César Alves e Paulo Afonso Parreira Júnior pela condução do projeto, e às pessoas da comunidade extensionista que contribuíram com trocas, sugestões e reflexões ao longo da experiência.

Declaração sobre o Uso de Inteligência Artificial

A produção deste texto contou com o apoio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) Generativa. O ChatGPT foi utilizado para gerar a imagem da capa e, em conjunto com o Perplexity, na revisão ortográfica, no aprimoramento da clareza textual e na organização de ideias em trechos específicos. A produção do conteúdo, incluindo sua concepção, argumentação, seleção de referências e validação das informações é de responsabilidade do autor.

Referências

ALVES, Julio Cesar; PARREIRA JÚNIOR, Paulo Afonso. Software Livre e Impacto Social: Contribuições que Transformam o Mundo. Projeto de extensão universitária. Lavras: Universidade Federal de Lavras, 2025.

FORPROEX. Política Nacional de Extensão Universitária. Manaus: FORPROEX, 2012. Disponível em: https://proex.ufsc.br/files/2016/04/Pol%C3%ADtica-Nacional-de-Extens%C3%A3o-Universit%C3%A1ria-e-book.pdf. Acesso em: 16 mar. 2026.

FREE SOFTWARE FOUNDATION. What is Free Software? GNU Project, [s. l.], 2026. Disponível em: https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.html. Acesso em: 16 mar. 2026.

GADOTTI, Moacir. Extensão universitária: para quê? São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2017. Disponível em: https://paulofreire.org/9-noticias/247-extensao-universitaria-para-que. Acesso em: 16 mar. 2026.

MELO, Amanda Meincke et al. Curricularização da extensão universitária: o que a comunidade brasileira de Computação tem a ver com isso? SBC Horizontes, ago. 2023. Disponível em: https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2023/08/curricularizacao-da-extensao-universitaria/. Acesso em: 16 mar. 2026.

PEREIRA, Roberto. A arte da escrita: 10 dicas para melhorar o seu texto. SBC Horizontes, ago. 2020. Disponível em: https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/08/guia-de-estilo/. Acesso em: 16 mar. 2026.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES nº 7, de 18 de dezembro de 2018. Estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira. Disponível em: https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/55877808. Acesso em: 16 mar. 2026.

UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME (UNDP). Open Source Software for Public Practitioners. Blog UNDP Trinidad and Tobago, 2023. Disponível em: https://www.undp.org/trinidad-and-tobago/blog/open-source-software-public-practitioners. Acesso em: 21 abr. 2026.

Autoria

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Michel Alexandrino de Souza é estudante de Sistemas de Informação na Universidade Federal de Lavras (UFLA) e acredita que a tecnologia só cumpre seu papel quando é compartilhada. Atua como representante no Centro Acadêmico de Tecnologia da Informação e carrega o aprendizado prático de sua passagem pela Emakers Jr. Entusiasta do software livre, dedica seu tempo acadêmico a projetos que provam que colaborar em código aberto é, acima de tudo, um impacto social. Quando não está transformando linhas de código em soluções acessíveis, você o encontrará torcendo apaixonadamente pelo Flamengo ou acompanhando qualquer esporte que esteja passando na tela.

Como citar esta matéria:
SOUZA, Michel A. Open Source na Prática: o que uma experiência de extensão me ensinou. SBC Horizontes. ISSN 2175-9235. maio de 2026. Disponível em: https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2026/05/open-source-na-pratica-o-que-uma-experiencia-de-extensao-me-ensinou/. Acesso em: dd mês aaaa.

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