Tô boiando

Tô boiando

Gosto muito de uma música do R.E.M. que se chama It’s the end of the world as we know it (and I feel fine). É o fim do mundo como nós conhecemos (e eu me sinto bem). Essa parte eu entendo. Mas o restante da música eu acho complicado de pegar de ouvido. O cantor apresenta o cenário em uma super velocidade, que só aqueles muito entendidos conseguem entender.

Eu capturo algumas palavras, tento juntar em algumas frases, mas a minha habilidade nunca acompanha a música. Só engato mesmo no refrão e canto junto. É fácil compreender que é o fim dos tempos. Soa um pouco estranho a parte que eu me sinto bem. Não sei se me sinto bem mesmo, mas encho o pulmão de coragem e aumento a voz.

Assim como o R.E.M, também tenho a minha coleção particular de eventos que comprovam que o mundo nunca mais será o mesmo. Nesse admirável mundo novo vai ter útero artificial e bebê fertilizado por robô. Artificial e universal também será o sangue. One size fits all. Robôs que nos imitam estão a caminho. Mais do que isso, eles fazem tudo o que nós fazemos e vamos nos apaixonar por eles. Acho que isso nem é mais uma novidade. Mas penso que nem todo mundo sabe que a pele robótica vai se regenerar sozinha. Já estão testando olho biônico e até uma língua artificial. Tudo isso porque os seres sintéticos também precisam de sentidos. Quase esqueci de listar os nanorrobôs, que irão circular pelo nosso corpo e alterar nosso DNA, e a possibilidade da imortalidade por meio de criogenia.

Nesse fascinante mundo novo, as máquinas são quase humanas e os humanos quase máquinas. Criador e criatura se misturam em uma nova espécie singular. Singularidade.  

A vida em mutação está com muita pressa.

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— Seremos tipo ciborgues? — pergunta incrédulo o meu amigo.

— Não, é mais do que isso. Seremos um híbrido de homem e máquina — respondi.

— Acho que não entendi.

— Não haverá diferença entre homem e máquina. Dizem que elas vão nos incorporar. Sintéticos de base biológica.

— Que viagem. Fiquei boiando.

— Então aproveita que estás na água e curte a correnteza. Só cuida pra não congelar. Tu podes acordar assombrado no futuro.

Arte: Niki (@jururuart)
Revisão: Tiago Bergenthal (@tiago_bergenthal)
Texto produzido durante o módulo Mosaico (@oficinasantasede & @rubempenz).

Como citar esse artigo:

BASSANI, Patrícia Scherer. Tô boiando. SBC Horizontes, 03 ago. 2026. ISSN 2175-9235. Disponível em: < https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2026/08/to-boiando/gt;. Acesso em: DD mês. AAAA

Patrícia Scherer Bassani é doutora em Informática na Educação, professora, pesquisadora e escritora. Autora do livro Transformação Digital. Fundadora da Basic.femtech.

Currículo lattes e site pessoal

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