Autopoiese em Nexus-7
A ideia da criação de si mesmo em modo contínuo embasa o conceito proposto pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. Autopoiese é a explicação do vivo. Um sistema autopoiético produz seus próprios componentes e estrutura.
A autorreprodução é um processo exclusivo dos sistemas autopoiéticos e gera outra unidade de mesma classe. Não acontece por uma ação externa, mas pela capacidade inerente do sistema de se produzir e se manter continuamente. Interessante, e um pouco difícil de entender, é que esse fenômeno não é constitutivo do ser vivo. Para os pesquisadores, a reprodução não faz parte da organização do sistema, porque é possível existir sem se reproduzir. É um fenômeno derivado. Um desdobramento evolutivo da capacidade autopoiética. Em sistemas vivos, a reprodução decorre da autopoiese.
Existem outros modos para gerar unidades de mesma classe, como réplicas e cópias. Réplicas são produzidas a partir de um modelo original. No contexto biológico, envolve a duplicação de componentes moleculares específicos, como o DNA. Por outro lado, as cópias são criadas a partir de um procedimento de projeção, para gerar outra unidade idêntica. É imitação. Não faz parte do processo de vida.
A autopoiese é o processo exclusivo dos seres vivos, enquanto a réplica e a cópia são características de sistemas não vivos ou artificiais, pois o mecanismo de reprodução é exterior ao modelo reproduzido. Nenhum sistema sintético é aceito como vivo.
Mas as coisas mudam no devagar depressa dos tempos, lembra o poeta. Hoje já falamos em living intelligence, a inteligência viva. Esse é um conceito que representa a convergência entre a inteligência artificial, a biotecnologia e sensores avançados. Essas tecnologias combinam o digital e o biológico em sistemas capazes de perceber, aprender e evoluir além da programação humana, permitindo capacidades que seriam impossíveis de outra forma.
Blade Runner apresentou ao mundo os primeiros replicantes, seres sintéticos criados por bioengenharia. Inteligência viva em formato humanoide. São réplicas, não podem se reproduzir. Mas sempre tem uma primeira vez. Aconteceu com Rachael, série Nexus-7. Um sintético reproduzindo vida.
É ficção científica, mas muda tudo.
Autopoiese explica o vivo. É biológico. Produzir a si mesmo.
Mas, o que acontece quando a vida se torna híbrida?
Vamos ter que viver para ver.
Arte: Niki (@jururuart)
Revisão: Tiago Bergenthal (@tiago_bergenthal)
Texto produzido durante o módulo Mosaico Santa Sede (@oficinasantasede & @rubempenz).
Como citar esse artigo:
BASSANI, Patrícia Scherer. Autopoiese em Nexus-7. SBC Horizontes, 01 set. 2026. ISSN 2175-9235. Disponível em: < https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2026/09/autopoiese-em-nexus-7/>. Acesso em: DD mês. AAAA

Patrícia Scherer Bassani é doutora em Informática na Educação, professora, pesquisadora e escritora. Autora do livro Transformação Digital. Fundadora da Basic.femtech.